quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ator


Não posso fingir ser quem não sou.
Até porque me entrega a máscara, me entregam os óculos e o cobertor,
Não posso fingir ser quem não sou, até porque estou cravado na minha carteira de motorista.
Antes de tudo, porque, ao acordar, identifico-me no espelho.
E percebo o medo, a coragem, a verruga e as sobrancelhas.
Não posso fingir ser quem não sou porque esperneiam dúvidas sobre as sobrancelhas.
E ao identificar-me assusto comigo!
Nem sei se eu existo.
Não posso fingir ser quem não sou porque tenho compromissos,
Porque é preciso cumprir o horário, seguir o itinerário,
Escovar os dentes.
É preciso fazer valer minha rotina.
Que é minha.
Por ela me identifico.
Primeiro o pão, depois o leite, pouco depois ir ao banheiro.
Ligar o chuveiro, temperar a água.
Demorar-me em pensamentos sobre quem veio primeiro,
Cristóvão Colombo ou os índios,
O ovo ou a galinha.
Não posso fingir ser quem não sou,
Embora muito ator: De mim mesmo.


Raphael Vidigal

Escultura: obra de Leda Gontijo. 

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