quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Auto de Natal


A morte é servil.
Trabalha incessantemente.
Só a vida descansa.
A morte é escrava.
Para ela não há feriado.
Só a vida descansa.
O som da morte é rangente.
Quando ela chega incomoda.
Para a morte nunca há festa.
Só a vida é celebrada.
A morte é servil.
A morte é escrava.
É uma visita inesperada.
A morte só tem sossego,
Quando a vida em seus braços descansa.
Mas a vida, lépida e pândega,
Bêbada como um rio,
E troncha como um canhoto,
Para a morte nunca dá descanso.


Raphael Vidigal

Rimbaud


Palavra é osso.
Poeta é cão.
O osso da poesia é o que sinto?
Poema é vulto.
Verso é visão.
Poeta tem olho nas costas?
Espelho disforme.
Poema é bola de cristal.


Raphael Vidigal


Oração pagã


Pão do desdém
Água do ciúme
Livrai-nos de toda chantagem
Aos 4 ventos

Raphael Vidigal


domingo, 20 de dezembro de 2015

cópia


palhaço é mentira
mentira é mulher
mulher é concha
concha é segredo
segredo é peixe
peixe é mar
mar é revolta
revolta é verdade
verdade é mentira
mentira é poeta
poeta é mulher
mulher é palhaço


Raphael Vidigal

Pintura: obra do artista Chanina. 

Método


Metade do que lembro é inventado.
A outra metade é
                                achado.


            metade do que invento é lembrado.
            metade do que acho é
                                                      inventado.



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Modigliani. 

sem título

o dia está voando

























Raphael Vidigal

Criancice


Eu quero um amor de piquenique
            Um amor de bola de gude
            Um amor sublime
Quero um amor que não existe.
       Só pra brincar de esconde-esconde.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Pablo Picasso. 

Cabaré


caí de boca
            de pano
               nos 4 cantos do mundo


caí de quatro
              costados
nas bocas todas do engano


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Edgar Degas. 

Chaplin


o mundo me é
                        desfocado
porque sou míope

o mundo me é
                        preto & branco
           porque sou clássico.



Raphael Vidigal

Imagem: foto de Charlie Chaplin. 

Encontro


Drummond gostava da palavra
“Taciturno”.
Quando andava na orla de Copa-
Cabana, pela praia, assim se
Auto-referiu, para vencer
A timidez, e cumprimentar
A tiete, apresentadora, atrevida,
Cheia de cachos de banana.
Não era Carmen Miranda.
Elke Maravilha foi quem me
Contou essa história. Ou
Estória. Do seu encontro com
Drummond.
Taciturno.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Toulouse-Lautrec. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Vista


Posso ver num papel higiênico
duas andorinhas.
Posso ver num papel guardanapo
duas camaleoas.
Posso ver, desde que a vida
não me atrapalhe a prosa.


Raphael Vidigal

Imagem: foto do poeta Paulo Leminski. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Clamor


Quando a noite desce,
Eu ascendo.
Quando o sol apaga,
Eu soneto.
Quando a aurora coloca as estrelas pra dormir,
Eu me acendo,
Eu SOLFEJO,
Eu me alivio num clamor sem fim.

Raphael Vidigal

Imagem: foto da cantora Valesca Popozuda.

Elke Maravilha


Eu sou o cara que vai comprar cigarros e nunca mais volta.
Eu sou o seu príncipe encantado. Num cavalo branco.
Sou o Fausto de Goethe e sou Marlon Brando.
Posso ser homem, mulher, Roberta Close ou Sophia Loren.
Eu sou o poema.
A bola de cristal do mágico.
O escuro.
O claro.
O Cinema.
O Teatro.
A Dança e as Artes Plásticas.
Sou apenas uma imagem.
Sou texto. Sou tátil.
Sou água. Profunda.
Eu sou fútil.
Posso ser Cazuza ou Roberto Carlos.
Leonor ou Andrade.
Sou a fuga e a volta.
Aquela mulher que sai pra comprar cigarros e nunca...
Uma criança desesperada.


Raphael Vidigal 

Imagem: foto da artista Elke Maravilha.

O pêndulo e a gôndola


A gôndola e o pêndulo.
O pêndulo e a gôndola.
Alternam-se na mesma rota.
São das águas desta Veneza.
Hipnotizam Velhas Senhoras.

A gôndola e o pêndulo,
O pêndulo e a gôndola,
Iniciam a trajetória,
No preâmbulo da aurora,
Um segue a sina seca,
A outra encharca a bota,

– A gôndola e o pêndulo –
– O pêndulo e a gôndola –
– Têm o mesmo parentesco –
– Do leão e da leoa –
– Mutuamente devoram-se –
– Para dar vida à essa morte –

(A gôndola e o pêndulo
O pêndulo e a gôndola
Na mão de um vai ponteiro
Na da outra, remo de águas
O pêndulo e a gôndola)

“A gôndola e o pêndulo
Obedecem ao grito da raça
Aceitam desejos fáceis
Quem dera coubessem os dois
Num poema de Fernando Pessoa”

Haveria
Nisto
Alguma
Glória
!

...a gôndola e o pêndulo...

O pêndulo e A gôndola?


Raphael Vidigal

Imagem: foto do poeta Fernando Pessoa.

Anedóticas


Que literatismo;
Quanta literatice;
Haja literalidade;
Tudo no sentido figurado.


Raphael Vidigal

Imagem: foto do poeta Manoel de Barros. 

Drummond


Mando beijos por correspondência
para a moça dos “Correios”.

Infelizmente a carta que eu envio
vai sem aviso de recebimento.

E eu me consolo olhando o envelope
deste amor não correspondido.


Raphael Vidigal

Imagem: foto do poeta Carlos Drummond de Andrade. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Sabedoria popular (Lições de vovó)


Todo amigo da onça
                                   Merece dar com os burros n’água!


Raphael Vidigal

Ilustração: Desenho do "Bafo de Onça", personagem criado por Walt Disney. 

Gabriel García Márquez


Levar o cachorro para passear num domingo de manhã.
Tocar as pernas pela primeira vez.
Cruzar os dedos.
Arrepiar de calor.
Aprender a chupar melancia.
Juntar os caroços pretos.
Pintá-los de batom.
Transformá-los em joaninhas.
Tocar as pernas. Cruzar os dedos.
Arrepiar de frio.
Aprender a linguagem dos coelhos.
A linguagem dos gatos.
E dos passarinhos.
Mexer nas orelhas num dia de frio.
Mexer nas orelhas num dia de calor.
Mexer nas orelhas no primeiro dia;
Das pernas, dos dedos, da melancia.
Rir da chuva.
Suspirar de êxtase.
Soluçar de medo.
Espirrar de gripe.
Ser contido.
Ser cuidado.
Ser beijado.
Ser acolhido.
Ter a febre medida.
Ter a temperatura tirada.
Ter um tempo.
Em silêncio. Sozinho.
Povoar o mundo de encantos, de sinos, de crianças, de filhos.
Povoar o mundo da imaginação.
Povoar o mundo dos bichos.
Voar. Tocar o céu com o mindinho.
Sentir as nuvens de perto; o bafo das nuvens ao alcance dos dedos.
Tocá-las.Vê-las explodir como algodão doce.
Morrer de rir. Morrer de calor. Morrer de suspiro. Estar vivo.
Amar todas as mulheres numa só andorinha.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Fragonard.  

  ©Caminhos dos Excessos. Template e layout layla-imagem banner: tela de Salvador Dali

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