quinta-feira, 24 de junho de 2010

Correntes:


“Nossa maior tragédia é não saber
o que fazer com a vida.” José Saramago


O nosso amor começou com Charles Chaplin.
Depois de um tempo apareceu Oscar Wilde, e logo em seguida, Caio Fernando Abreu.
E nós ali, tateando no escuro, tentando ver o que era ficção e o que era eu você nós dois.
Nunca tivemos certeza, mas acho que por algum momento chegamos a sentir nós dois naquele dia.
Não foi quando sua perna tocou a minha nem quando eu ri nervosamente tentando disfarçar o meu estado já alterado no fim da noite.
Talvez tenha sido na hora de ir embora.
De nos despedirmos.
E aquela mão ficou no céu entre nós dois tentando se prender a correntes invisíveis.
Correntes que depois nos aprisionariam e nos jogariam nisso que chamamos fim, acontecimento ou separação.
Ou mesma parte da vida. Prosseguimento da vida, eu diria.
A sua vida seguiu e eu nunca mais tive notícias.
Mas ainda guardo nesse céu invisível que há entre nós um pedaço de corrente que nos prendeu e infelizmente hoje só me resta liberdade.

Raphael Vidigal

Pintura: Lago com Nenúfares, de Monet.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Amor I:


"É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.” José Saramago

Amor; platônico.
O que se realiza, ás vezes, é a paixão.

Minha criatividade é recriar o novo, criar o antigo.

O amor é uma redenção.
O amor é uma rendição.

E essas coisas não acontecem jamais.

Raphael Vidigal

Pintura: Três mulheres, de Pablo Picasso.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Mesmo que morta:


“Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.” Carlos Drummond de Andrade – Com o pensamento em Ana Cristina


O que foi que deixou em mim que não me deixa seguir em frente, perseguir a vida, ser feliz?
Em um o outro momento sempre me bate essa tristeza, essa saudade, essa espécie de morte em vida.
Sempre em mim. Mesmo que morta, distante, sem notícias.
A me perseguir pelo resto da vida, como um fantasma.
Talvez a chuva contribua para isso.
Eu nem sei onde você está, quem você é.
Foi ou será?
Ás vezes eu acho que prefiro estar triste, que eu a perigo, a persigo.
Todo esse vazio em volta entra no meu ouvido, me diz coisas horríveis.
A impressão de que todas as pessoas estão distantes, esquecidas, frias.
“Preciso tanto...!” me grita Ângela Ro Ro no ouvido. Preciso tanto de você, dos meus amigos, de querer estar comigo.
Tudo isso que a gente pensou que era eterno, não existiu.
E a gente pode morrer a qualquer momento.
Não tem a ver com estar sozinho, tem a ver com estar com medo, desprotegido.
E assim nasce aquela vontade de chorar como um bebê, encolhido em seus braços que nunca mais me tocaram, nunca mais tocarão.

Toda estrela que cai é porque um dia esteve no céu.

Raphael Vidigal

Pintura: Enchantment Vesperal, de Marc Chagall.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Trânsito:


“Assim que se afasta a pessoa se esquece de tudo, só resta o eco vago de um deslumbre atordoante.” Truman Capote

Não entendi quando você olhou pra mim daquele jeito, aquela forma.
Pensei em não desviar o olhar, em tentar escutar o que os olhos e os sinais que fazia com a mão me diziam.
Pensei que talvez nos conhecêssemos de algum lugar, alguma data esquecida dentro de uma caixa de sapatos sem brim.
Que nunca estiveram lá, à bem da verdade.
Pensei também nessa frase: quem quer o bem da verdade?
Enquanto isso você continuava olhando, e rindo.
Rindo, e eu nervoso, branco, com medo sem saber o que vinha medo de onde era medo quem é o medo.
Mas você deixou que eu passasse a seu lado.
E eu não tive coragem, eu fui embora sem sequer dar chance a você de perceber o ar que passava por meus cabelos e arfava da minha boca, suada, fria.
Talvez você soubesse, talvez você ainda saiba.

Raphael Vidigal

Foto: Ana Cristina Cesar, Poeta Brasileira.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O céu está laranja:


“O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta.” Adélia Prado

O céu está laranja.
Lembrei de você à beira do asfalto, do precipício, de um ataque de nervos.
E descobri que eu não sei mais escrever se preciso, precipício.
Só viver
Só você
Risco /

Enquanto isso a gente vai vivendo essa vida vagabunda medíocre que tem sempre os mesmos objetivos, as mesmas conquistas e fracassos diferentes.

Melindro, esmero, esmerilhar.
Tudo já parece fazer parte do passado.
Eu quero sempre fazer parte dum passado.

Mais do que nunca, cada vez mais que sempre.

Raphael Vidigal

Foto: Dina Sfat, Atriz Brasileira.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Vende-se:


“(...) a fantasia é a realidade e a realidade nada significa.” Oscar Wilde

Eu era uma mulher de uns trinta anos com medo da morte.
Solteira, sem filhos, sem nenhum pecado.
Era também uma daquelas que preferia uma cabeça ao invés dum cérebro.
Além disso, gostava de inventar paixões para mim.
Foi quando vi um anúncio numa loja de sapatos em liquidação e percebi:

O AMOR É UMA QUESTÃO DE HABILIDADE.

Raphael Vidigal

Pintura: Marilyn Monroe, de Andy Warhol.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Amor II:


“E com o bronze da estátua da Dor que é permanente, fundiu a do Prazer que dura um instante.” Oscar Wilde

Amar dói demais, a gente só entende isso quando ele vai embora.
Mas o amor não é pra ser entendido.
É pra ser sofrido.

Raphael Vidigal

Pintura: Dancer, de Joan Miró.

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