quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ator


Não posso fingir ser quem não sou.
Até porque me entrega a máscara, me entregam os óculos e o cobertor,
Não posso fingir ser quem não sou, até porque estou cravado na minha carteira de motorista.
Antes de tudo, porque, ao acordar, identifico-me no espelho.
E percebo o medo, a coragem, a verruga e as sobrancelhas.
Não posso fingir ser quem não sou porque esperneiam dúvidas sobre as sobrancelhas.
E ao identificar-me assusto comigo!
Nem sei se eu existo.
Não posso fingir ser quem não sou porque tenho compromissos,
Porque é preciso cumprir o horário, seguir o itinerário,
Escovar os dentes.
É preciso fazer valer minha rotina.
Que é minha.
Por ela me identifico.
Primeiro o pão, depois o leite, pouco depois ir ao banheiro.
Ligar o chuveiro, temperar a água.
Demorar-me em pensamentos sobre quem veio primeiro,
Cristóvão Colombo ou os índios,
O ovo ou a galinha.
Não posso fingir ser quem não sou,
Embora muito ator: De mim mesmo.


Raphael Vidigal

Escultura: obra de Leda Gontijo. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Pergaminho


O mundo a ser explorado
Com seus encantos e mistérios
Está aí a ser explorado
Com seus encantos e mistérios
Se apenas fixarmos
Em uma coluna o nosso tédio
O mundo a ser explorado
Com seus encantos e mistérios
Terá perdido a própria força do milagre


Raphael Vidigal

Pintura: "Dom Quixote e Sancho Pança", de Pablo Picasso.

Lápide


A vida é triste.
Mas o que podemos fazer?
Se não nos é permitido modelá-la.
Não nos foi dada a honra de fazê-la.
A vida em sua circunstância é um longo arco,
Um arco que termina ao longe,
Do qual só nos é permitido enxergar a ponta.
E por essa incapacidade do olhar,
Por essa insuficiência de horizonte
Sentimos algo a que se acostumou chamar angústia.
A vida com suas dores acaba para quem parte,
Mas não para quem embala o morto.
Por isto é sempre trágica, sob algum aspecto.
Por isto é sempre cômica, sob outro aspecto.
A vida do dia a dia não é muito diferente dos dias venturosos.
Começa com uma longa puxada de fôlego,
E termina com a ausência que sucede o êxtase.
Começa com uma esperança,
Com a expectativa do mistério,
E termina no momento em que permanecemos nele.
A vida como uma migalha,
Como uma lupa,
Como um parêntese.
A vida como uma pomba.
Um olhar mais atrevido,
Ou um beliscão para constatar o sonho,
Não a desmancha.
Ela se desenrola e enrola de novo feito carretel.
Puxamos o fôlego ainda  na ausência que precede o êxtase.
Embora em ignorância.
Embora em melancolia.
E muito embora imperfeita
A vida é feita de pequenas misérias.
A morte é a reunião de todas elas.
Para que não se a desperdice,
Há os enlevos de Florbela Espanca
O ápice do Monte Everest
A sordidez do riso.


Raphael Vidigal

Pintura: "Quarto Azul", de Pablo Picasso. 

sábado, 23 de abril de 2016

Derrisão


Esse espaço em branco
Está aqui para ser preenchido
Com um poema
Que diga
Que a vida é bonita
E que a morte não é inimiga

Esse espaço em branco
Está aqui para ser preenchido
Com falsas esperanças
Muitas cicatrizes
E as flores de todo dia

Esse espaço em branco
Está aqui para o sacrifício
Como um poema
De Ana Cristina Cesar
Um filme de Ingmar Bergman
Uma doença, uma berne

Esse espaço em branco
Está aqui
Mas não deveria
Seu destino era ser cingido
Pela espada dos anos
O crespo terror das verrugas
E a esperança dos lírios


Raphael Vidigal

Imagem: retrato de Arthur Rimbaud. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Ininteligível


A vida é uma piada
Pena que a gente não ria no final



Raphael Vidigal

Imagem: pintura do palhaço Arrelia.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Estória


O home sofre.
É inevitável.
O homem sofre ao nascer.
O homem sofre porque irá morrer.
O homem nasce chorando.
E morre com os olhos lívidos e absortos.
O homem sofre antes, durante e depois do primeiro beijo.
O homem sofre antes, durante e depois do primeiro amor.
O homem sofre depois da primeira morte.
O homem sofre com as sucessivas mortes.
E continua sofrendo ano após ano.
É inevitável.
O homem sofre ao nascer, sem saber porquê.
E o homem sofre ao viver,
Porque sabe que irá morrer.



Raphael Vidigal

Foto: imagem do filme "A Paixão de Joana D'Arc", de Carl Dreyer. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Favas contadas


São favas contadas
O adeus
A esperança
E o primeiro beijo

São favas contadas
O desejo
O amor
E o tiro de misericórdia

São favas contadas
O mistério
A penumbra
E o desespero

São favas contadas
O espanto diante da morte
A perplexidade da vida
E os eternos adeuses

São favas contadas
Esperar no outro
Pedir pelo outro
Morrer por si mesmo

São favas contadas
O pote vazio
O primeiro choro
O peito imenso

São favas contadas
Acreditar na filosofia
Acreditar na política
Morrer pelos mesmos

São favas contadas
Que nada venha duas vezes
Que tudo se repita
Que a vida nunca se complete

São favas contadas
Que a vida se repita
Que os amores regressem
Que nunca se esvazie o peito

São favas contadas
O leite derramado
A madeira de lei
E este poema.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Van Gogh.

sábado, 16 de abril de 2016

Baunilha


Saudade do toque
Da sua pele.
Seu cheiro de leite,
E teu aroma de nuvem.

Saudade da boca
De pêra,
Da tua língua de almíscar.
E teu sabor de anteontem.

Saudade de dividir
O chuveiro.
De se molharem dois corpos,
E dividir nossos sonhos.

Saudade de persistir
No teu corpo,
De erigir monumento
Ante o teu busto de amor.

Saudade de invadir os terrenos,
De lhe doar territórios,
De ser mulher e ser homem.

Saudade de ser senhor da sua guerra,
De ser escravo do teu chicote,
Me ajoelhar na penumbra.

Saudade de invadir a caverna,
Soltar as redes e as manivelas,
Molhar a língua na concha.

Saudade do que passou e permanece,
Como quem sai para o mar,
E tem o sal pela boca.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Manet. 

Azares


Tinha a faca e o queijo na mão
Quando enfiou o pé na jaca


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Gauguin.

Venda


A vida é uma conquista
Mas a morte é um direito de todos
Por mais que se espere na fila
Um dia ela chama seu nome

A vida é uma conquista
Circunscrita aos desejos da morte
Por isso enquanto ela pisca
Não se afaga quem fecha-lhe os olhos


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Cèzanne.

Era uma vez em Tóquio


Quando a vida se extingue
O que era espesso torna-se vítreo
A faísca não mais existe.
Quando a vida se extingue
Calam-se as borboletas
O que era espesso torna-se vítreo.
A faísca não mais existe
Dissolve-se a camada visível
A lembrança cobre os olhos e boca.
Quando a vida se extingue
Perpetuamos a pergunta
Para onde irá o que vimos,
O que tentamos conter em abraços,
Beijos, carinhos, chocalhos e lenços?
O que não se conteve.
Como represa que fura o tempo
Leva para onde não vemos.
Em que respingue a luz,
Respingue o dia,
Respinguem as borboletas,
Quando a vida se extingue
O que era vítreo torna-se espesso.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Van Gogh. 

Encerramento


Não me peças mais nada
Além do que já fiz.
Não peças para os meus olhos
Cortinas estreitas.
Não encomende para a minha boca
As portas de um labirinto.
Não coce minhas orelhas,
Não tire minhas pulgas,
Deixe-as a ir.
Deixe-as descansar
Junto ao meu leito.
Junto às baratas.
Cortejado pelos ratos.
No meu reino sem cortinas,
Sem portas estreitas.
No meu reino sem labirintos,
No meu reino sem filamentos.
No meu reino sem orelhas,
Sem pulgas, sem dedos,
Todos devorados por baratas,
Por ratos,
Por lagartixas,
Pelas viúvas negras.
No meu reino em que só há lugar para o medo.
Só há lugar para o encerramento.



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Monet. 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Despedida


Adeus a todos
Adeus para os hipócritas
E para os que sonham sê-lo
Adeus para os cavalos de Tróia
Adeus a todos
Adeus para os que lambem selo
E aos que comem sebo
Adeus para os presentes de grego
Adeus
Adeus para o céu
Adeus para a lua
Adeus até para os desvelos
Para os mistérios de Deus
Para os dízimos
E os dizimados
Adeus para os hipócritas
E para os que sonham sê-lo
Adeus pra mim mesmo
Senhor da paráfrase
Instrutor do poema
Pai do eufemismo
Crente da arte
Escravo das tradições burguesas
Adeus
Adeus para todos
Adeus para a família
Para a religião
Para a pátria
Adeus para os sonhos de coletivo
Adeus a toda ideologia de esquerda
A algum marxismo que ainda em mim resida
Adeus ao cinismo
Adeus à incoerência
Adeus à divagação
À vida
A toda ideia reprodutiva
A todo clamor popular
Adeus aos livros
Adeus aos parágrafos
Adeus ao destino
Entro descompensado no domínio do breu


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Artemisia Gentileschi.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Refinamento


Ter da uva o vinho
Ter o pão pelo trigo
e ao ser tua ser minha

Ter do fogo o incêndio
Ter a chuva pelo granizo
e ao ser tua ser minha

Ter da mão o alento
Ter a cigana pela profecia
e ao ser tua ser minha

Ter da abelha o mel
Ter a noz pelo esquilo
e ao ser tua ser minha

Ter da terra o trigo
Ter o pão pelo vinho
e ao ser tua ser minha

Ter do fogo o incenso
Ter o orvalho pelo granizo
e ao ser tua ser minha

Ter da cigana o seio
Ter a abelha pela mão
e ao ser tua ser minha

Ter do mel o cheiro
Ter a noz pela língua
e ao ser minha oferecer-te


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Ticiano.

Quiromancia


A gente inventa tanta coisa...

            Por que então não inventar uma doçura,
                                   Um branco, e um
                                                                       girassol?

Eles estão nos meus olhos,
                                   e na minha cruz



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Van Gogh. 

Tchekhov


É preciso canonizar os nossos mortos...
            Pois que em vida foram tão só humanos
Mas na memória tornam-se santos...

            É preciso canonizar nosso passado
Pois que a nostalgia é um remédio prático
Receitado por Nostradamus...

A fim de acreditarmos que a vida fora um dia glória, soberba e luz


Raphael Vidigal

Imagem: foto do dramaturgo russo Anton Tchekhov. 

Cesta


Apesar das dores
Apesar das caveiras
Apesar das cruzes

Apesar das ovelhas
Apesar das uvas
Apesar das luzes

Apesar do engenho
Apesar da rotina
Apesar da morte

Apesar da vida
Apesar da videira
Apesar da uva

Apesar da rotina
Apesar da maçã
Apesar da chama
Apesar da cesta
Apesar da vida
Apesar da mancha

Ofereço-me
Num pesadelo
E deságuo
Em sonho

Ofereço-me
Ao pescador
E deságuo
Em piranha

Ofereço-me
Apesar
E desmancho,
castanho...

ofereço-me
desmanchado
Apesar
me entranho

Nas dores
Nas caveiras
Nas cruzes

Nas lembranças
Nas memórias
Nas venturas

Nos campos
Nos desertos
Nos campanários

Nos oceanos
Nas colunas
No sangue

Apesar
Da morte
Me
Banho

Apesar
De estar morto
Restauro
E

Alcanço
A encosta
Alcanço
O paradigma

Da montanha
Encosto o
Ombro

Me deito
Castanho
Apesar
Do

Sonho
Canto
Cato
Restauro

Apesar da linha
Do Equador
Apesar da
Linha

Do carretel
Esnobo
O
Atlas

Sou mina
Sou mapa
Sou sonho
Sôo o sonho

Apesar das caveiras
Apesar dos corvos
Apesar dos túmulos
Apesar concreto

Apesar do mármore
Para além do oceano
Para além da porta
Para além dos pássaros

Me entorto
Me avilto
Me entranho
Me alargo

Me humano

Sou
Sonho


Raphael Vidigal

Imagem: Wally Salomão no filme "Gregório de Mattos".

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