sexta-feira, 25 de novembro de 2016

banho de mar

 
                         

                      *para meus anjos da liberdade

esse foi um ano de saudade
não porque tenha sido diferente dos outros
justamente por ser igual.
a morte é sempre covarde
invejosa
se espreita nas banhas da falta
a vida
que tem o olho da coragem
afunda suas mãos no barro
do barro a argila nasce
dela é feita a saudade
como de sal os mares
como em cimento a morada
e não no olho
mas no olhar a coragem...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de William Turner.

feijoada completa


um corpo é um corpo é um corpo é um corpo é um osso é um olho é um corpo é um olho é um osso é um cisco é um pelo é um olho é um corpo é um osso é uma orelha é uma unha é uma boca é uma língua é um pelo é um corpo é uma carne é um osso é uma pele uma barriga é um corpo é um cheiro é um cheiro é um gosto é um tempero é um corpo é um olho é um olhar é um olho é um osso é um braço é uma pata é uma orelha é uma pele é um gosto é um focinho é um corpo é um corpo é um porco é um corpo é um corpo é um porco é um porco é


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de William Turner.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Epifania


A morte só existe para quem a vive



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Giorgio Morandi.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Crônica


Poesia,
que palavra mais besta,
que palavra mais fria.
Por que não poema?
Ou então sorvete de chantilly?
É mais quente, e refresca ainda por cima.

Raphael Vidigal

Imagem: retrato da dançarina norte-americana Josephine Baker.

Reticências


Triste saber que não chegamos a lugar nenhum...
Que o caminho é tudo, e nada mais.


Raphael Vidigal

Imagem: retrato do cineasta russo Andrei Tarkovsky.

Imagem


O sonho não tem consistência
O sonho não tem
Ele inclina
Mas como?
O sonho não tem congruência
O sonho não tem lado ou risco
O sonho não tem globo ou cílio
Ele vê
Mas o sonho não tem rosto
O sonho não tem consistência
Ele é
O sonho não tem coerência
O sonho não quer ser humano
O sonho nem quer existir
Ele plana
Mas quando?
O tempo do sonho é um sonho
O sonho anda e pula
Ele voa
O sonho não tem nem cabide
O sonho não tem nenhuma roupa
O sonho exibe as vergonhas
O sonho não teve vergonha
Nasceu foi sem sexo
Escolha?
O sonho não escolhe
Ele ganha
O sonho não pede
Ele é
O sonho não sanha
Ele sonha
O sonho é o sonho é o sonho
O sonho não tem consistência
O sonho não é gelatina
O sonho não é marshmallow
Ele é vida
O sonho não está no show business
O sonho não está na TV, o sonho não está na internet: ele vive


Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "La Belle de Jour", de Luis Buñuel. 

Para Antonioni


Morrer nada mais é do que uma incapacidade dos que estão vivos...
... A morte para estes é apenas esperança



Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "A Aventura", de Michelangelo Antonioni.

Olhar


Na consulta
O diagnóstico
Não fora míope
Nem de astigmatismo
A doença estava nos olhos
Como uma catarata: utópico


Raphael Vidigal

Imagem: detalhe de obra de Joan Miró. 

O Feio


Se a Humanidade salvasse apenas o que é bonito
Não teríamos os quadros de Francis Bacon, e muitos
Dos filmes de Ingmar Bergman. Jamais veríamos a
Dança de Lennie Dale, expurgaríamos trechos inteiros
Das músicas de Miles Davis. Não falo do triste, não
Me refiro ao burlesco, falo do feio. O feio do cão sem
Dono, o feio da barriga vazia, da poesia de João Cabral de Melo Neto.



Raphael Vidigal 

Imagem: retrato do trompetista norte-americano Miles Davis. 

O sorriso de Sarah


o sorriso de Sarah é
vermelho é
comprido

o sorriso de Sarah tem a cor do
vestido
mexe

comigo
o sorriso de Sarah
quanto
mais se oferece mais

aumenta o mistério do sorriso de
Sarah
é

vermelho comigo
mexe comprido


Raphael Vidigal

Fotografia: Obra de Robert Mapplethorpe. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Aldravas


desatar o ato
desafiar o fato
desfiar o fio
inventar o impossível
neste interregno chamado: vida



Raphael Vidigal

Imagem: fotografia de Robert Mapplethorpe.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

lírica portuguesa


ah, os Algarves do amor
constantemente são férteis
constantemente são fósseis...

ah, as Armadilhas do amor
nelas deitamos solenes
nelas deitamos sonâmbulos...

porque o Amor do amor
é fóssil fertilizado
solenidade sonâmbula...



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Inimá de Paula.

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