quarta-feira, 30 de abril de 2014

Cura


Uma mancha terrível
Mancha de óleo, mancha de gordura,
Uma massa falida.
Massa de Drummond, mancha de sal de fruta,
Mancha de Rabelais, massa: a palavra pura.


Raphael Vidigal

Pintura: "Lavadeiras nas margens do rio Touques, 1890", de Eugène Boudin. 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Ornitorrinco


Escorreguei numa casca
De
Maçã

Cuspi abelha
Turca

E apesar de todos esses equívocos
Da terra no meio do caminho

Passo bem, pego no ferro da banana
Da pedra, da africana
Estou sã.

Raphael Vidigal

Fotografia: Rrose Sélavy por Marcel Duchamp. Foto de Man Ray. 

Crianças


Rói o osso
Rói a unha
Rói o cabo de vassoura

Pau no gato
Pau na bruxa
Pau também na prostituta

Um sorri a outra chora
Latem todas as crianças.

Raphael Vidigal

Pintura: "O Circo", de Seurat. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sylvia Plath


Há um cheiro de banha, de gordura,
Impregnando os ares.

Ninguém suspeita que o porco, a anêmona,
A vítima do psicopata

Mora nos quintais

Raphael Vidigal

Pintura: detalhe de "Lenda da Verdadeira Cruz da Rainha de Sabá no encontro com o Rei Salomão", de Piero della Francesca.  

domingo, 27 de abril de 2014

Nêspera


Não é que eu
Não queira o feijão
Na mesa
O frango com quiabo
E a rapadura.

É que a essa altura
A vida pede um pouco mais de viço
Sushi, yoga
E aquela fruta.

Raphael Vidigal

Pintura: "O bêbado alegre", de Frans Hals. 

A cavalo dado


Até se mostram os dentes
A gengiva
E a garganta.

Na cadeira de balanço
ou na cadeira de dentista
A boca está aberta.

E ecoam gritos

Raphael Vidigal

Pintura: obra da artista plástica Maria Lídia Magliani.  

Cuco


Eu sou poeta
Poeta não tem horário.
                
Eu sou asceta
Asceta vive em pronome.

Estou possessa
Juntei vida horário fome
E só me resta
A seta dos quadrinômios.

Raphael Vidigal

Fotografia: Buster Keaton por Richard Avedon.  

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ato médico


Uma tosse, um espirro, um engasgo,
Tudo vira poesia
Quando se está de alergia
A catapora, a caxumba, o primeiro de maio,
Não importa, o bicho que te picou é um cachorro,
É um gato, um caminhão, um velocípede,
Pois é nessas horas que se constata uma gripe.

Raphael Vidigal

Pintura: "Uma Moderna Olympia", de Cézanne. 

Kafka


O lagarto vira borboleta
Desde muito antes do bisturi
O casulo dá na natureza
O que a cirurgia dá aqui
Silicone, peito, bunda, sexo,
Muda até a cor do faquir
O que era espelho vira reflexo
E o que era certo já não é bem assim
Bem, nessa história de metamorfose,
Eis que o inseto humano
(Buda, hindu, asceta),
Aprende a existir.

Raphael Vidigal

Pintura:  "Hyde Park London 1890", de Pissarro. 

Jack Kerouac


O vício da poesia é como o álcool como a cocaína te deixa ligado enfurecido não como a maconha que apazigua.

Raphael Vidigal

Pintura: Tocador de alaúde com taça de vinho, de Frans Hals. 

Páscoa


Na páscoa
É bom que se diga
Pras crianças
E pros velhinhos
O ovo da galinha
Como o corpo de Cristo
Ninguém viu, mas existe.

Basta dar uma olhada nas patas...
      Nos rastros... Na Bíblia...

Ou então,
Seja mais veloz que o dilúvio,
O relógio, a ave de rapina:



pergunte ao coelho de Alice.

Raphael Vidigal

Pintura: Instrumentos musicais, de Georges Braque.  

Pagou o pato


Injuriada está a aranha
Não o sapo,
Pois se um
Engoliu mosca
Na teia da outra
A tesoura passa

Repito
Injuriada está a aranha
Não o sapo,
Pois se na boca aberta a mosca cabe
Já não há banquete
Pra viúva ingrata.

Raphael Vidigal 


Pintura: "Jovem banhista", de Gustave Courbet. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O inferno é caro


O espaço de mármore reservava,
Na amplidão da adega uma verdade,
Entre o vinho e a carne: uma tesoura
Transpassa o curso do vinagre...


Raphael Vidigal

Pintura: "Majestade", de Duccio. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Prece


Que os dias bons
Possam apagar a chuva das ruínas
E no final do fundo
Haja uma constelação
Não rosa,
Nem carmim
Mas da cor do teu beijo.

Raphael Vidigal

Pintura: "Crozant, solidão", de Guillaumin. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Girassol


Na paleta meridional
De Van Gogh
Cabe o faminto
E o rocambole
Afinal era um holandês
Que bebeu
A luz o absinto e a prostituta
De um só gole.


Raphael Vidigal

Pintura: "Auto-retrato", de Van Gogh. 

Ensino médio


A poesia precisa ser simplificada.
Precisa de tônica, vodca,
E de palmada.

A poesia precisa ser compreendida.
Precisa de fônica, cinta,
E de pomada.

A poesia precisa servir para o mercado de trabalho.
Precisa de lentes de aumento, salário,
E de palmilha.

A poesia precisa entender o poeta
Esse sujeito abscesso, falido,
De palmas dadas
Caminham os dois
(não há acordo)
em desatino,
e desalento.


Raphael Vidigal

Pintura: "Retrato de um homem com a queixada de uma vaca em sua mão", de Frans Hals.

GARR ancho


Ancho
Um desperdício muito grande
Trocar um pedaço de carne,
Por uma garrafa.
Em todo caso
E em tudo
Anjo
Não me enojo
Frente ao garrancho
Ou ao hieróglifo.

A poesia se faz com patas
E muita sanha
E muita sarna
E alguns anúncios,
No telejornal, na esquina,
Na alcova
Ou na piscina
Flutuuua                
Solene, soberba, sestrosa:
A poesia.

Raphael Vidigal

Imagem: charge do cartunista Wolinski. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Regime


Um futurista pernilongo
Voa do passado
E prevê
Muito sangue
Para si
E para os outros.


Raphael Vidigal

Pintura: "Improvisação número 31", de Kandinsky. 

Quente


A chaleira de ideias
Ferve a cabeça
O bico a orelha
Expulsa a água o café
O chimarrão
A ideia
           aquece.


Raphael Vidigal

Pintura: obra do artista plástico José Roberto Aguilar. 

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