terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sinfonia


Há uma música escondida:
Na língua do sapo,
No bote da onça,
Há uma música de Beethoven

Na Guerra da Prússia
No coito dos asnos,
Na língua do sapo,
No mel cor de onça.

Há uma música aturdida:
No rabo da égua,
No passo da régua,
No acho dos ares.

Há uma música de Schopenhauer –
Há no livro de Nietzsche –
Há no cisco de Eurípedes –
No manso cavalo.

Há uma libélula morta
Na teia da aranha
Nas finas entranhas,
Engulo uma vírgula.

Há uma filosofia de Paganini
Há uma desilusão de violinos,

No pó que é do homem que é pó da maconha.

Raphael Vidigal

Pintura: obra do artista plástico Fernando de La Rocque. 

Esperança


As minhas bandanas me dizem sempre,
O quanto eu fui criança e já tive sonhos de coletivo.
O quanto eu fui um bicho
Selvagem, um leopardo: mirava a eternidade.

Hoje se acentua a bandagem,
Os pedregulhos, os rasgos.

Do único bicho que sabe:

Que irá morrer.

Raphael Vidigal

Pintura: "Mulher no Sol", de Edward Hopper. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O poder da natureza


A natureza é como a pessoa amada: tão encantadora quanto traiçoeira.
A cobra, mesmo não sendo peçonhenta, prova, ao inchar o papo e ameaçar o homem.
A cobra, para marcar território, engole gente, estrume, cacto e parasita.
A cobra rasteja na folha, engole o esquilo e incha o corpo, arregala os olhos, satisfeita com o que a vida tem pra hoje.


Raphael Vidigal

Pintura: "Castelo Arundel, com arco-íris", de William Turner. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A Onda


Uma certa tristeza está pregada nos andares.
Uma tristeza que não se sabe bem se é exata ou indefinível.
Uma tristeza está pregada nas paredes.
Uma tristeza está suspensa por andaimes.
Uma tristeza entre o desejo de Cabral e o caminho das Índias.
Uma tristeza igual ao sofrimento de Napoleão, de Cristo, dos vikings.
Uma tristeza como à infligida por Salazar, Pinochet, todos os tiranos, Hitler.
Uma tristeza artesanal, maquinada, escrita.
Uma tristeza que é de Israel e da Palestina.
Uma tristeza desumana, de carne, osso, entranhas, fígado.
Uma tristeza escultural, obra de Rodin, Gaudí, Claudel, Aleijadinho.
Uma mancha triste.
Sobre milhares de corpos: mutilados, congelantes, hirtos.

Raphael Vidigal

Pintura: "A Santíssima Trindade", de El Greco.  

domingo, 21 de setembro de 2014

dois bicudos não se: brincam


O poema & a poesia
Brigam por causa do trema
E também pela teimosia.
O poema & a poesia
Querem significar
Algo que dê dinheiro
E também como um fundo branco
Com sinos de letargia.
O poema & a poesia
Querem se impor pela carteira,
Afinal a prosa não sabe:
“- Com quem ela está falando?”.
O poema & a poesia
São os dois lados do mesmo verso.
O poema fica com a renda,
À poesia sobra o soneto.


Raphael Vidigal

Pintura: "Retrato de Guillaume Apollinaire", de De Chirico. 

O gordo e o magro


O espirro é muito mais elegante,
Quando sai do nariz,
Invadindo a sala.
A tosse, por outro lado, com aquela habitual grosseria,
Esconde-se entre os dedos.
O espirro, quando bem dado, espanta adultos, crianças, mulheres, gatos.
A tosse, nariz empinado, une-se ao som do espaço.
O espirro vem como enxurrada, furacão, tsunami.
A tosse, bem recatada: sinaliza a passagem, dá tempo ao mordomo e à empregada.
O espirro dá-nos uma pneumonia.
A tosse um câncer.
Afora isso, não passam de poses.
Deveria ter dito Oscar Wilde

Raphael Vidigal 

Pintura: "Aufgehender Stern", de Paul Klee. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Marc Chagall


colocou só o céu na barriga,
porque não coube o escarcéu inteiro.


Raphael Vidigal

Imagem: foto do pintor russo Marc Chagall. 

sábado, 13 de setembro de 2014

Ilha


nada me atravanca
            nada, nem ninguém
me alcança
                        nada
            nessa baía de guanabara
ou no álbum de Bianca.

Raphael Vidigal

Pintura: obra de Modigliani. 

Sexo tântrico


Na marra
Namora
Na miúda

Qual é mais vantajosa?
Qual é mais obscura?

Na moda
Na mirra
Na maluca

Qual é mais acintosa?
Qual é mais absurda?

Na minha
Na moça
Na misógina

Qual é a tribo, mora?
Qual é a tribo Mura?


Raphael Vidigal

Pintura: "Duas mulheres correndo na praia", de Picasso. 

Des inventando


leia todo dia
um pouco de poesia
leia na cortina
nos ramos de folha
na pipa.

leia no besouro
no olho do boi
no bueiro.

leia como se a vida
fosse também poesia.


Raphael Vidigal

Pintura: "O Passeio", de Marc Chagall. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

2 ÷ 2


me dê um copo de sangria
uma porção de vodca
e uma penicilina

me dê o português da física
o globo da história
e a crença da astrologia

me dê que eu simplifico:

o osso do unicórnio
o chifre do cachorro
e o português da física

Raphael Vidigal

Pintura: "Estúdio com crânio", de Braque.  

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Indiferença


A onda ignora completamente o jogo de futebol,
a fome dos africanos,
a cor do sol de Van Gogh.

A onda aniquila o homem,
arrebenta a embarcação,
baba na areia.

Raphael Vidigal

Pintura: "Uma Noite Estrelada sobre o Ródano", de Van Gogh. 

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