quarta-feira, 28 de maio de 2014

Romance


O humor contou para o drama uma piada de mau gosto.
Este se sentiu ofendido.
O primeiro achou cômico.

O drama contou para o humor que foi traído no matrimônio.
Este achou ridículo.
O primeiro achou desastroso.

A vida conta para o drama e o humor que afogou o ganso.
De tanto chorar ri o drama.
O humor ri tanto que chora.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Oskar Kokoschka. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

SPRAY Extrato de Própolis Santa Bárbara 35 ml


Que sou poeta
Do cotidiano,
Não sei.
Mas dói
A afta na língua.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Alberto da Veiga Guignard. 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Virginia Woolf


Um gosto de remédio em todas as águas,
Uma crosta de adultério nos cílios, nas horas,
Me borra a maquiagem.
Um manequim tem prazo,
Compressa de água quente me afunda os tentáculos...


Raphael Vidigal

Pintura: "Porto com a Villa Medici", de Claude Lorrain. 

face meça


fruta madura
furta matuta

mata fulana
fula maisena 

maga magana
fole falena


Raphael Vidigal

Pintura: "Duomo 1948", de Oskar Kokoschka. 

barro e vinho


a uva explode feito vinho
no pé do camponês gaúcho.

o barro em água movediça
produz no pó da areia


argila.


Raphael Vidigal

Pintura: "Vacas descansando", de Anton Mauve.  

dito e feito


a manga
na boca do cachorro
é como
a mosca
na língua do sapo
(ou o dente do cavalo)

um chupa o outro engole,
(o outro é dado)
mas no final:
todos viram ditado.


Raphael Vidigal

Pintura: "Casamento do camponês", de Pieter Bruegel, o Velho. 

Diga-me quem daimes que lhe direi cacharrel


Se a moda merece uma viola
Porque não seresta
À lua?

Se a moda merece alta costura
Porque não partir
A lua?

Se a gôndola merece uma seresta
Porque não violar
À lua?


Raphael Vidigal

Escultura: obra do artista plástico G.T.O. 

chumbo trocado


A lua é sempre
A lua
Ás vezes mingua,
Ás vezes tá cheia.

A lua é sempre
A lua
Ás vezes nova,
Ás vezes crescente.

Só eu que não mudo nunca.
Ou é a lua uma irreverente? 


Raphael Vidigal

Pintura: "Paisagem com o Aeneas em Delos", de Claude Lorrain.  

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Astronauta


Matei-me por curiosidade
E descobri que não havia morte
E descobri que só a via:
Marte,
De uma terra inabitada
Onde a lua: ás vezes minguante,
Onde a lua: ás vezes minguava.


Raphael Vidigal

Pintura: "Porto com o Embarque da Rainha de Sabá", de Claude Lorrain. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Afrodite


possuída por uma membrana
de ideias
                        um penhoar
                                    uma fogueira
sob a qual
ainda arde a relva

Inteira.

Raphael Vidigal

Pintura: "Flores do parque", de Ernest Quost. 

não fôssemos dois seríamos um


o corpo me limita
o coração palpita
não tem pr’onde explodir

confina o espartilho
o peito sem cortina
de leite um chafariz

o tórax é mole
a escravatura abole
            quer comer um caqui

tomar uma cerveja
fumar um maço e a nesga
            entre o teu e o meu sentir.



Raphael Vidigal

Imagem: foto da atriz e cantora Zaíra Cavalcanti. 

Perseguida


Livre de um corpo que incomoda,
De pernas finas que não cabem em nenhuma calça,
Deste nariz que mal me deixa respirar.

Livre de um corpo em decomposição,
Dos olhos míopes,
De dores nas costas,

No baço, no fígado e no coração,
Assoberbado de gordura,

Morte, morte,
Venha na hora exata.

Quando eu já não puder esperar...



Raphael Vidigal

Pintura: "Junquilhos e flores de parede", de Ernest Quost. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

acordo de cavalheiros


o esteta foi ao esteticista afim de estatizar.
qual não foi a surpresa quando o esteta
vizinho
veio dedetizar.
jantaram e hoje são amigos,
dividem a mansão e o SPA.


Raphael Vidigal 

Pintura: "Capitão-mor e Elomar", de Orlando Celino. 

Palhaço


Ria da minha cara
Deste sorriso amarelo,
E dos meus olhos castanhos. 

Ria da minha cara
Na minha boca: um flagelo
Nas narinas: um cântico.

Ria da minha cara,
Que esta minha cara amarela
Esse sorriso castanho,
Ri por debaixo dos panos.


Raphael Vidigal

Pintura: "Autorretrato", de Rembrandt. 

São Longuinho dou 3 pulinhos


abri uma caixinha de ferramentas,
tirei a pinça, a agulha, a renda e o supositório,
achei a chave da casa, da mentira e do trabalho,
tinha chave da verdade, da justiça e do purgatório,
achei: todas as mil chaves, de São Pedro e do demônio,
só não acho a chave de fenda.

(pois pra operação ser completa,
é preciso afrouxar o prego,
mas não acho a chave que aperta)


Raphael Vidigal

Pintura: "Os provérbios holandeses", de Pieter Bruegel, o Velho. 

sexo


quando um não quer
dois não
                     pintam


Raphael Vidigal 

Pintura: "Fuga", de Kandinsky. 

Linguagem de figura


Gosto de ver no escuro
Quando os olhos são menos visíveis
E as imagens mais redundantes.



Raphael Vidigal

Pintura: "A Vila Fete", de Lorrain. 

Compromisso


É bom chegar no horário
Para o almoço
Um compromisso importante
Um namoro

É bom chegar no horário
Para a noite de núpcias
Um compromisso inadiável
            Uma consulta

Só não me chegue no horário
Quando eu estiver morto.

(deixa descansar um pouco)



Raphael Vidigal

Pintura: "A Virgem com a criança", de Luis de Morales. 

Farpado


Comigo não tem vez,
Não tem bola,
Não tem tamanco,

Toda essa audácia,
Essa manha,
Esse desencanto;

Eu embolo e brinco de arame.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Antonio Peticov. 

Riso-tiro


Eu proponho
O riso
Ante a gripe
A caxumba
E a monarquia!

Eu proponho
O tiro,
O estalo,
O chilique,
A onomatopeia,

Para melhor me entenderem:
Dos dentes e das gengivas.

Raphael Vidigal

Pintura: "O Magro", de Frans Hals. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Doce de mãe


Mãe,
Não me peça uma palavra
De fruta, talher e cozinha,
Eu descasco e nem a água,
É capaz de lavar essazinha.

É possível que a essa altura,
Espreitando em meio às formigas
A palavra como açúcar
Se derreta e adoce sozinha.

Pois, mãe, o amor de um filho,
É grande e inexplicável,
Quanto maior o amor,
Pior
A palavra não explica,
Mais turva é a poesia

Foge como formiga
Escapa como água
Cai como batata
Explode como mexerica!
Dos mesmos pés que no ventre
Chutaram essa barriga.


Raphael Vidigal

Pintura: "Virgem e a criança", de Cesare Vecellio. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

pássaros


entre a anáfora e a anágua
     o sibilo de um lábio
                 escapa



Raphael Vidigal

Pintura: "do lago", de Georgia O'Keeffe. 

Ajoelhou


Não cobiçar a mulher alheia.
Mas como: se tem duas peras
Uma melancia, um rabo de sereia,
Um saco de farinha e a língua de água
Fria?

Como: se me alfazema
Se me acaricia,
E no final a inveja é um pecado e a reza
Uma eucaristia.



Raphael Vidigal

Pintura: "Cigana", de Frans Hals. 

Pobre o cobre podre


Há algo mais estúpido do que explicar poesia?
Sim,
Há a Guerra Fria,
A bomba de Hiroshima,
O Holocausto, Hitler,
Crianças que foram devastadas num dia de domingo,

Barato, provinciano?

A estupidez é do homem,
            Nunca da poesia.


Raphael Vidigal

Pintura: "A Ronda Noturna", de Rembrandt. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Evolução da espécie


Agora eu entendo,
Quando olho no olho de um cachorro,
No compasso, na orelha, no rabinho abanando, na baba, na língua,
Toda aquela pureza,
De que você me falava e eu não via.
Agora eu entendo,
Que o cachorro é um bicho,
Sinto um troço, esquisito,
Pois sou bicho também,
Mas pareço um anfíbio.

Quando olho no olho de um cachorro,


Raphael Vidigal

Pintura: "Bufão tocando um alaúde", de Frans Hals. 

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