domingo, 31 de julho de 2016

Sangue


Ao ler estas palavras muitas vezes deve ter pensado que não tenho coração.
Mas é por ter coração que as digo, é por ter coração que cuspo a bile, o fígado,
Por ter coração que me revolto, indigno. É por ter coração que me enciumo.
E esgarço até onde posso minhas peles, revolvo-as, atiro-as contra a parede, contra você. Para que sinta o pútrido cheiro que a mim extingue, e exala daqui.
E possa assim talvez, ou não, ou nunca, ou pela derradeira agonia, nutrir meu
Sangue em fervura, caudaloso, escaldante, e derramá-lo nestes pés de bolhas, marcas, vermes, doenças, promessas, calçado pelas asas do demônio.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Egon Schiele. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Farpas


Esta desgastada e arrebentada palavra,
Feita de pus, gangrena, pena de urubu,
Sem direito a esparadrapo, lubrificante,
Mercúrio. Esta palavra nas suas últimas,
Agoniza em praça pública. No leito de
Morte. Esta palavra aos pedaços, aos
Barrancos, nos trancos, não pega, não
Se move, já não tem pernas e nem tem
Braços. Esta palavra sem muleta, sem
Voz, sem olfato. Esta palavra não cheira,
Sem paladar, sem tato. Natimorto. Esta
Palavra, ancorada por fios, seixos, retratos,
Mantém-se à espreita, na memória, árdua,
Embora há muito já seja defunta, há muito
Não seja lembrada. Pois não existe, esta
Palavra desgastada. Arrebentada. Fraca.
Calçada por cruzes, pregada em cartazes,
Anunciando o fim do mundo, fim dos amores,
A suprema palavra que não quer ser calada: fala.



Raphael Vidigal

Imagem: escultura "Bichos" de Lygia Clark. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ilusão


A vida pura
Desfeita de ilusões.
A vida na mesa,
Servida como refeição.
A vida inteira.
A vida como pêra,
Como gomos de mexerica,
Sumarenta, escorrendo pela boca,
Ácida entre os beiços,
Afiada, pontuda,
Como casca de abacaxi.
A vida pura.
A vida inteira.
Desfeita de ilusões.
A vida na mesa,
Como um poema.
A vida como um filme.
A vida como música, como fruta
A vida desfeita de ilusões,
Escorre por entre os beiços,
Beija o cálice de vinho
A vida inteira,
A vida aos gomos,
A vida pura,
Como casca de abacaxi
Que cabe num poema,
Num filme, a vida
Imensa.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Otto Scholderer.

Reticências


A morte de todas as coisas,
Leva com elas o seu aroma, o seu açúcar,
Leva o seu cheiro, o seu açude.
Leva, leva e carrega como tornado
Ou tempestade, como vulcão,
Como enxurrada.
E não se importa com os que ficaram,
E não compensa com nada a falta,
É ignorante, e irritável.
Leva e exacerba o próprio curso.
Leva, leva, leva,
Leva e carrega,
Sem se importar com os que ficaram.
Porém não limpa,
Porém não varre,
Não tem tal força,
Não delimita,
O que é uma luz,
O que é memória,
O que é lembrança,
Pois do açude,
Pois do açúcar,
Pois do aroma,
E até do cheiro,
Mais vale o zelo dos que ficaram,
E reinventam na vida a morte,
O que se levou foi somente corpo,
Pois permanece, sob o manto da invisibilidade,
Algo sem cheiro,
Já sem açúcar,
Vazio o açude,
O aroma inócuo,
Repleto apenas de luz prateada,
Que é luz dourada, é luz de transe,
Luz de lembrança: nunca se apaga.
Que se arranquem os interruptores,
Que todas as lâmpadas sejam quebradas,
A luz responde: não tenho nada,
Sou toda sua,
E acendo sempre que na memória,
Um coração bate de lembrança,
(brilho da glória) e de saudade.
O que se leva é só o corpo,
Luz não se apaga,
Luz pirilampo,
Luz prateada,
Eu ergo sempre os punhos nos mares,
Deles retiro tanta saudade... E brilha sempre uma luz selvagem...

...Que não se apaga...



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Otto Scholderer.  

Momentos


Desde que soube já esperava, de alguma forma estranha, por essa notícia.
Não sei bem como me sinto. Às vezes uma profunda tristeza, noutras estou Sereno. Vêm as lembranças, dias que passaram colados a um plano desfocado, ao longe, que vai aos poucos se aproximando por uma lente de aumento invisível, presa sob alguma haste, iluminada por alguma nuvem, e pelas estrelas que não param de piscar. Como dois olhos orientais.
Momentos recortados que agora pregam-se em meu coração de memórias. Tantas coisas feitas, que pareciam feitas, mas que sob a égide do tempo se desvanecem como o mais puro açúcar, que é também evanescente. E só não é pó porque brilha. Tem o brilho do açúcar. Seu gosto de saudade: é doce.
Não sei bem como me sinto. Há alguma coisa esquisita dentro de mim
Que não consigo decifrar. Um desencanto sereno, manso, sem revolta,
E que nem sei se é dor.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Otto Scholderer.  

Infinito


Na véspera do dia 25,
André nasceu.
Letra pequena, nome comprido.
Os sobrenomes, que eram cinco,
Em homenagem aos japoneses,
Aos alemães e italianos. E ao seu Império.
Durante pouco mais de 25
André subiu, André desceu,
Foi das colinas às cachoeiras.
Foi para os mares. Para os seus fundos. E nas ribeiras.
Na antevéspera do dia 25,
André nasceu
Pra o infinito.
Como um poema, cujo sentido
Não nos explica, porém o brilho
Pra sempre brilha.
Letra pequena, nome comprido.
André agora
E para sempre
É cada gesto, cada momento, cada fagulha
De sentimento. Cada saudade. Cada alegria.
Numa lembrança: o seu sorriso.
Numa estrela: o seu sorriso.
Numa pelada: o seu sorriso.
Numa piada: o seu sorriso.
De olhos fechados, olhos puxados,
No travesseiro, entregue aos sonhos: o seu sorriso.
É com palavras o teu sorriso.
Porém se diz como um ideograma
Um idioma irreconhecível
Que não se entende
Mas sempre brilha.
Brilha. Brilha. Brilha.
Tão infinito.



Com carinho eterno,
do Vidiga ;) 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Mondrian


Entre o azul, o amarelo e o vermelho,
Um olho negro. No meio do medo, a
Flor geométrica. Sem parênteses, livre
Dispersa, toda a natureza bonina das

Minhas missivas jamais entregues na
Revolução de 1930, ou quando os por-
tugueses levaram as primeiras especia-
rias para terras de reis e rainhas e rubis.

Debaixo da árvore, a minha caveira, na
Lápide imersa o meu primeiro e último
Medo: a flor geométrica, lívida, sem par-

ênteses, presa pelas próprias pernas, as
raízes duma vida entorpecida, absurda, e
tão bela, porém desfeita de sentido: singela.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Mondrian. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Delírio


Teu olhar pousado sobre a minha fronte.
Agora que pertenço ao mundo do sono.
Sou todo sonhos e convulsões delirantes.
Teu olhar pousado sobre a minha fronte.

Como barco a vela investiga a minha proa.
Mas o que vejo: teu olhar pousado sobre a
Minha fronte: vejo com os olhos do sono.
Tudo sonho de convulsões delirantes. Como

Barco, vela, estendo a minha proa. Tocam-me
Os destroços dos mares fundos em corais distantes...
Teu olhar pousado sobre a minha fronte.
Nesga de esperança, crosta interminável.

Vida que se ergue quando deita a morte.
Teu olhar deitado sobre a minha fronte.
Pois só te encontro quando fecho os olhos...



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de William Turner. 

Futuro


COMA COLA CACO
CALE CELA LACE
COMA COMA CASE
ZECA CAZE EZAC


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Portinari.

Escultura


De tantas insignificâncias
Erigiu-se uma arara
As asas vermelhas
Um bico de pena
O poema em retrato.

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Guignard. 

Paradigma


Eis um quebra-cabeça
Onde sempre falta uma peça.
Não é redonda nem quadrada,
Não é a ausência que a aniquila
A peça, embora encontrada,
Não cabe no seu destino.

Como formiga no mel,
Como penacho de índio,
Como feto, na barriga,
Mesmo dentro, se distingue.

O quebra-cabeça incompleto
Exibe a crosta, a cicatriz,
O buraco, fundo e negro,
À espera que a formiga,
Que o penacho de índio,
Que o feto, da barriga,

Escape mole e preencha... o vazio dos seus dias...

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Matisse. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

cálice


AMAR AMAR AMAR
AMAR TANTO QUE
NÃO SEJA POSSÍ-
VEL QUEBRAR O
ENCANTO DA PALAVRA-
MAR-A-MAR-AMAR-A-MAR

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Van Gogh.

Método


mergulho no meu absurdo
e de lá tiro um urso, um camelo,
tiro um arbusto, um coelho.
Crio um poema.
No susto e sem enredo.

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Van Gogh.

cale-se


AMAR AMAR AMAR
AMAR TANTO QUE
NÃO SEJA POSSÍVEL
QUEBRAR O ENCANTO
DA PALAVRA-
MAR-A-MAR-AMAR-A-MAR

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Van Gogh.

Hermenêuticas


O que eu digo
Não se escreve
O que eu escrevo
Não digo


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Van Gogh.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Esperança


No Reino das Coisas Mortas
Um coração desperta calmamente
Entre arbustos e salamandras
Entre rajadas de vento,
E calcanhares de gelo...

No Reino das Coisas Mortas
Aos poucos se desvencilha,
Primeiro sente os dois olhos,
Depois a respiração,
Por fim a espinha fria...

No Reino das Coisas Mortas
tropeça nas próprias pernas,
As salamandras riem
O gelo lhe fere seco,
...pois antes que se ajoelhe...

Algo a mantém suspensa...

Raphael Vidigal 

Imagem: foto do dramaturgo Jean Genet.

O Teatro e Seu Duplo


Se existe dor ao nascer,
Por quê não imaginar,
Nesta vida de ambiguidades
Que a morte nos alimente ao contrário?
E exauridos de prazer,
Nos libertemos destas inertes máscaras...

Se alimentamos a morte,
Que a morte nos alimente.
Porquê não imaginar?

Raphael Vidigal

Imagem: Antonin Artaud no filme "A Paixão de Joana D'Arc".

Ode a Ingmar Bergman


Aqui
Escuro e só.
Sentado sobre minhas angústias.
Neste holograma indefinido
Da minha passagem por este mundo.
Como canela no leite morno

Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "Luz de Inverno", de Ingmar Bergman.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ouro Preto


Não nos é permitido conceber a própria vida.
Mas nos é dado o poder de destruí-la.
Como então acreditar em Deus,
esse ser áspero e tão indefinido,
que no máximo concede aos fariseus,
sua vitória no sangue do Filho?
Como então acreditar em Deus,
se o Vinho e o Pão nunca se explicam?


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Emeric Marcier. 

Querelle de Brest


O fruto do meu desespero
É cor de cinza
Castanho
Como meu primeiro grito
Porém em seu interior
Feito mofo
Tem uma cor indefinida
Brumosa, feita de argila

O fruto do meu desespero
É cor de cinza-castanho
Como meu primeiro grito
Tem uma cor indefinida
Feito bruma
Como mofo me unto à argila
Do fruto do meu desespero
Uma mão eriça


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Paul Cadmus. 

Gêmeos


O poema invade
O poema extorque

O poema é janela
O poema é porta

O poema suspira
O poema tosse

O poema escapole
O poema espanta

O poema tem ponto
O poema tem ponta

O poema tem peito
O poema tem bunda

O poema geme
O poema janta

O poema é oral
O poema tatua

O poema é anfíbio
O poema é pássaro

O poema voa
O poema pula

O poema perece
O poema espuma

O poema é vermelho
O poema é laranja

O poema é pêssego
O poema é manga

O poema é camisa
O poema é tanga

O poema é força
O poema é distância

O poema é China
O poema é roça

O poema é pelego
O poema é panda

O poema tem bile
O poema tem bula

O poema obedece
O poema burla

O poema é chute
O poema é firula

O poema chora
O poema canta

O poema singra
O poema sangra

O poema é uma puta
Mas age como santa

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Salvador Dalí.

  ©Caminhos dos Excessos. Template e layout layla-imagem banner: tela de Salvador Dali

TOPO