sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Trejeitos


O poeta dorme tarde.
E só acorda depois das nuvens.
Nada o tira da cama.
Antes do tempo das uvas.
É só com a parreira farta.
E o cálice gordo de água na boca,
que o poeta, no vagar de um gato,
começa a espreguiçar pelos braços.
Logo em seguida confere o relógio de bolso,
(o seu tempo é sempre outro)
e chega a uma conclusão inafiançável:
haverá mais tempo de uvas.
Melhor permanecer de pijama.
E abraça o travesseiro como quem captura sonhos.


Raphael Vidigal

Imagem: foto de Primavera das Neves.

oleosa


a poesia engraxa os sapatos com óleo de amêndoa.
a prosa engraxa os sapatos com óleo de coco.
a vida passa descalça com óleo de cozinha, vinagre e azeite.


Raphael Vidigal

Imagem: foto de Florbela Espanca.

pressuposto


macambúzio
e inzoneiro,
cadê – o sentido
das palavras?
cadê, o meu
dicionário...


Raphael Vidigal

Imagem: foto de Wally Salomão.

sujeito


quem tem a alma com chuva
mesmo depois que ela seca
continua pingando


Raphael Vidigal

Imagem: foto de Carlos Drummond de Andrade.

objeto


uma alma com chuva
mesmo depois de seca
permanece pingando


Raphael Vidigal

Imagem: foto de Manuel Bandeira.