segunda-feira, 2 de abril de 2018

Despacho



Encerrado em meu 1º quarto
Tão só como o último filho...
O fogo-fátuo me serve de aparato,
Enquanto a perna acolhe o infinito...

Pendei as cruzes crespas da velhice
Pela esperança calma da infância...
Adoeci a cada primavera,
Tornei-me são quando a aurora queima...

Como a cigarra ignorei o trabalho
Se hoje canto é por apego ao belo...
Bem sabe o monge em seu relento pleno,
Morrer é tudo o que se faz na vida...


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Matisse.

Elegia do Rabo



Quase nunca te vejo em poemas
Passa a vida debaixo dos panos
Mas todos os anos está conosco
E para as horas mais difíceis do dia
Há os que juram proteger-te com rara bravura
Apesar disso é relegado ao escuro
A luz só o visita em ocasiões oportunas
Ser marginal, vão como um reles, um furo
No entanto, ao teu trabalho
Se prostra a dama e o moribundo
Não há quem seja capaz da existência plena sem ti
A quem se confiam os segredos mais obscuros
Libera os gases, pequeno: tu és o cofre do mundo



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Francis Bacon.

Desolação



por uma pequena fresta
            de luz entra o nosso medo
                        por uma fenda
                                   uma esperança acesa

e tão sem desejo



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Marc Chagall.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Caio Fernando Abreu




Uma necessidade
insana
de ser
amado
   não pela sombra
   mas a própria
         escuridão


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Goeldi. 

Êxodo



As cartas de nossa época já não têm mais o langor de outrora.
As cartas de nossa época já não demoram.
Tampouco exigem paciência e calma.
As cartas de nossa época não atravessam mares na garrafa.
Jamais conhecerão o bico de uma pomba.
Ou a asa da espera na solidão distante.
As cartas de nossa época mantêm apenas a tentativa
de se recuperar a perda através das palavras.
Que é o destino de todas as cartas.



Raphael Vidigal

Imagem: obra de Tarsila do Amaral.