sexta-feira, 17 de março de 2017

pasto


pantomimas
prosódias
e paraopebas
nada disso tem importância
quando o coração está de bucho vazio

paródias
pastiches
nada dizem a um coração inane
nem mesmo a chuva é capaz de lhe
regar os vasos sanguíneos


Raphael Vidigal 


Pintura: Mauve, de Giovanni Boldini. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

engana-se

              


              a última vez foi engano

a primeira foi enganação 


Raphael Vidigal

Gravura: Obra de Livio Abramo. 

Apartamento


Quantas vezes nos despedimos?
Porém, sem ter mesmo para aonde ir regressamos ao apartamento.
As mãos trêmulas, a garganta vazia, a sombra mocha junto aos cálculos de uma dívida irrisória.
Paredes brancas iguais a saudades,
Ígneas, deslumbrantes.
E nós ali, de bruços,
sem um, sem o outro.
Apenas contando as despedidas,
Recontando as feridas,
Rejulgando os gestos.
Cada palavra, cada riso,
e tantos, tantos cacos de vidro espalhados...
poderia ser de outra forma?
Não responde o apartamento branco,
o apelo brando,
a mão sem saudade,
calosa,
apenas suando...
certa de que o pranto virá em seu socorro.
Nada vem, só no eixo permanece a despedida
Cética e rumorosa
por entre os poros das paredes brancas...


Raphael Vidigal

Gravura: Obra de Livio Abramo. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sibilar


vivi com a emoção
à flor da pele
os nervos de aço
ficaram em frangalhos
a língua afiada
nos dentes
hoje uma língua de sogra
como o olho de sogra
que já foi gordo, outrora grande
pois nunca meti o nariz
aonde não fui chamado
puxei a orelha
peguei no pé
estalei as bochechas
nem tudo na vida é ditado
apenas vivi à flor
da idade
na pele marcada
de burro fugido
sem cor


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Matisse. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Desfile


Entre ampolas e ampulhetas caminha
com o amparo do toco de braço que lhe
resta. Os olhos contém dois furos cujo
fundo é preenchido por um vermelho e
azul raio. Planta bananeira com o único
toco de braço que lhe resta. Assim nas
pernas podem se ver duas rendas: uma
azul e a outra vermelha. A água desce do
corpo até o intestino grosso, aonde dá uma
volta e amarra-se de novo cabeça. Sobre
cujo contorno assemelha-se a um chapéu.
Com a fúria de um cão sem dono exibe uma.
Mantém no lábio modesto um sorriso tétrico
de carnaval
             entre ampolas e ampulhetas



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Francis Bacon. 

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