sábado, 31 de outubro de 2015

Pier Paolo Pasolini



A madrugada é minha amiga; é minha guarida; é minha inimiga.
Nela eu me deito de joelhos, de bruços;
Nela eu sou um velho,
Sou moço.
Eu sou mulher e inseticida.
A madrugada é minha amiga; minha bruxa.
Nela eu ostento louros.
Nela eu sou cavalo;
E sou louca.
Nela eu sou poeta;
E só ossos.
Na madrugada eu vivo e morro.


Raphael Vidigal

Imagem: foto do diretor, ator e poeta Pier Paolo Pasolini. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Etc.



Se comeu muito ou pouco,
bem ou mal,
um dia o morto não guardará
nem sinal.

Se dormiu em chão de índio,
ou em rede de cacique,
um dia o morto não guardará
nem sinal.

Se bebeu do vinho tinto de Portugal,
ou do vinagre,
um dia o morto não guardará
nem sinal.

Se teve as melhores mulheres,
se foi homem de Vênus ou de Afrodite,
um dia o morto não guardará
nem sinal.

Se foi na vida morto,
se na morte terá sono de vida,
não se saberá do morto,
que não guarda nem sinal.

Raphael Vidigal

Pintura: "Mulher", de Farnese de Andrade. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Milan Kundera



Sono leva como pluma.
Sono pesado como pedra.
Sono de guerra.
Sono de paz.
Sono de sonâmbulo.
Sono vivo, ambulante;
sono de anjo.
Sono do coma.
Sono da morte.
Sono pré-morto.
Sono sino.
Sono barulhento.
Sono santo.

Sono de prostituta; sono de todos.

Imagem: foto do escritor tcheco Milan Kundera.  

Aquilo que não mais existe



Foi um dia vida.
Mas hoje é a morte.
A menina que pulava bananeiras.
O menino que saltava bambuzais.
O sexo da senhora de Creta.
O mar de Creta.
A cidade de Creta.
O príncipe negro.
A princesa negra.
A velha senhora de Creta.
Tudo, o que um dia foi sonho.
Tudo, o que um dia foi inocência.
Hoje é consciência.
O que um dia foi morte.
Hoje é vida.
Aquilo que não existe mais.
Os músculos, as fibras, o pâncreas, o fígado.
O coração.
O intestino.
Toda a presença.
Um enorme vazio.
Uma palavra cheia.
Uma palavra que não representa.
Apenas sugere.

Aquilo que não existe mais.

Raphael Vidigal

Pintura: "Branco sobre branco", de Malevich. 

Falando grego ou Quem tem boca vai a Roma



Rubrica ou rubrica?
Pudica ou pudica?
O som não sai no papel.
Mas está no ouvido.


Ou em Ovídio?

Raphael Vidigal

Pintura: obra de André Masson. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Contemporâneo



Nem todo barril vive cheio.
Nem toda doença apodrece.
Nem todo trapezista ganha o céu.
Nem toda bailarina é convexa.
Nem toda adrenalina é funesta.
Nem todo anjo tem sexo.
Nem sempre as melhores tropas vencem.
Nem todo derrotado é o mesmo.
Nem todo príncipe tem rei.
Nem toda rainha tem netos.
Nem todo sofrimento é eterno.
Nem toda alegria completa.

Tudo, um dia, cessa.

Raphael Vidigal

Pintura: obra de Piet Mondrian. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O gato



O gato olha tudo.
Reto, concreto e duro.
O gato de cima do muro.
Olho o gato com olhos de gato.
Reto, concreto e duro.
O gato de cima do muro.
O gato olha tudo.

Reto, concreto e duro.

Raphael Vidigal

Escultura: obra de Amilcar de Castro. 

Consternação



Que mundo é este em que vivo?
É um mundo bonito,
e também violento.

É um mundo de angico,
De parede
e cimento.

Que mundo é este em que agora vivo?
É um mundo de andrajos,
e também das serpentes.

Um mundo que escorre,
pelas pontas dos dedos.

É um mundo de Freud,
E também de São Bento.

Que mundo é este em que vivo?
É um mundo de água,
que é sangue e veneno,

um mundo das flores,
das cortinas de ferro.

É o mundo em que a gente,
vai morrer,

simplesmente.

Raphael Vidigal

Pintura: obra de Daumier. 

A Montanha (projetos eróticos)



O hálito seco das montanhas,
O hálito, a quem se entregam as nuvens,
Como duas bundas, em sua posse.

O hálito seco das montanhas,
O hálito, que encharca as montanhas,
Como doce leite de macho.

O hálito seco das montanhas,
O hálito, um vocabulário,
Acende e exibe o sexo,
Dos santos e dos demônios.

O hálito seco das montanhas,
O hálito, em sua montanha,
Domina; por trás, pela frente,

E quando verga libera o gozo.

Raphael Vidigal

Imagem: foto do ator Maurício do Valle. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Terra (projetos eróticos)



A boca mais molhada,
Do que terra úmida.
Por dentro, encharcada.
Por fora, a promessa.

A boca mais molhada,
Do que terra fresca.
O seio, forma de ameixa,
O ventre macio de pera.

A boca mais molhada,
Do que terra seca.
A terra que censura,
E resistindo, cede.

A boca mais molhada,
Do que terra roxa.
O frio na barriga,
O calor nas partes fundas.

A terra feito boca,
A boca feito terra,
O dedo sobre a boca,
Que ao levantar-se, pede.

Raphael Vidigal

Imagem: foto da atriz Norma Bengell

O Vento (projetos eróticos)



O vento sobre o agreste,
O vento nos bambuzais,
O vento na casa rota,
Os ventos descomunais.

O vento que é emboscada,
O vento que fere a moça,
O vento que ganha as roupas,
O vento que, sobre o halo,
despido, a entorpece.

O vento irreverente,
O vento que é indomável,
O vento, jeito de macho,
O vento de Kilawera.

O vento lambe as cortinas,
O vento lambe as sementes,
O vento lambe a orelha,
O vento, manso, se ergue.
O vento que é ventania,

e, nua, se entrega aos dedos,
o vento nunca despreza,
o corpo, apesar que segue.
O vento puxa as cobertas,

deixa a ver o gozo e a lira,
o vento, obstinado, toma os pés,
a cabeça e os seios.
O vento nas pradarias.
O vento nas prateleiras.

O vento de Péricles;
O vento das putas e das orgias.
O vento quer pelo queixo,
O vento quer pelo umbigo,

O vento invade os buracos,
Os silêncios e os vazios.
O vento arranca os pedaços,
Transforma o que é casto em cio.
O vento e sua rajada,

Supera o homem
Supera a mulher
Supera a cria
Supera os bichos

Os minerais e as cicatrizes.
Supera as marcas.
O vento tem tempo de gozo,
Tempo de gozo tântrico
Tempo de martírio.

Tempo do prazer na dor
E do homem no menino.
O tempo tem cheiro de uva,
A escorrer feito vinho.

O vento está na colheita,
Na mulher madura e prenha,
O vento está nessa xepa,
No suor de todo dia.
O vento no albergue,

O vento na ventania,
O vento no duro íntimo,
O vento dentro da língua,
O vento que se insinua,

Entre pernas e varizes,
O vento na zona erógena,
O vento, busto de aço,
O vento, braços de vidro,
O vento, língua de fogo,

O vento, mãos alcalinas,
O vento, olhos de esponja,
O vento, concha molhada,
O vento, falo intangível.

Raphael Vidigal

Imagem: foto da atriz Leila Diniz. 

Allen Ginsberg



o poeta prolixo
o poeta verborrágico.

O poeta do lixo,
O poeta do trágico.

O poeta em seu nicho,
O poeta é um escracho!


O poeta é um bicho é um espetáculo;

Raphael Vidigal

Imagem: foto do poeta beat Allen Ginsberg. 

Insônia



Às 5 horas da manhã
Hora de poesia
Entrava-me na cabeça
Um verso que conduzia
A outro ainda mais longo
A outro que eu não entendia.

Raphael Vidigal

Pintura: "As Três Graças", de Rafael. 

Os 5 sentidos da arte



Deus concebeu os 5 sentidos da arte,
E distribuiu para cada categoria uma função.

O tato para as artes plásticas,
Para o cinema a visão,
A música ficou com a audição,
O paladar para a literatura,
Teatro e dança ficaram com a ação,
E para a culinária o olfato.

Desde então o humano só consegue dar sentido à vida
Quando, num toque mágico,
Come com os olhos,
Escuta com o coração,

E anda pra onde aponta o nariz.

Raphael Vidigal

Pintura: "O Dilúvio", de Michelangelo. 

Sinal vermelho



A você que é fã do esforço,
E da dificuldade,
     Um aviso:
- Para conseguir a atenção do poeta,
É como dar açúcar para as formigas,
Sal para os mares,
     E céus para os bem-te-vis,
        Basta pintar-lhe o nariz.


Raphael Vidigal

Imagem: fotografia do palhaço Carequinha, interpretado por George Savalla. 

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