terça-feira, 23 de abril de 2013

Cerol



Há, num universo imenso de possibilidades,
Algum misterioso enredo a permitir
O encontro
Entre duas específicas,
E então desesperançadas,
Almas, se preferir.
Quando não mais almejam nada da vida,
Talvez, seja o segredo, tão banal e equivocado
Que o ignoramos
Tanto quanto os garotos de periferia
A passarem cerol na linha do papagaio.
Mas ele há de cortar pescoços.
Ah o amor sempre corta pescoços.
Sejam os meus ou os nossos.
Ou de ambos.
Nesse caso, andamos sem cabeça de um lado a outro,
E o coração ficou como que tremendo, solto, no ar, sem dono.
O amor é, sem dúvida, o papagaio.
(agora mudo)
E o cerol, o orgulho.

E não há mortes e noticiários e repreensão dos pais e cacetada da polícia que impeçam esses meninos insolentes a desistirem de passar cerol na linha, e a deixarem fluir por aí apenas por esse prazer, sem cortar as nuvens ou o sol e teu brilho intenso...


A pressa dos miseráveis...


Raphael Vidigal  

Foto: "Pipa Papagaio", autor não identificado. 

O dragão



Esse o dragão
Adormecido da loucura
Esse o nevoeiro
Encoberto por cachos de uva
Desperto-os e avanço
Em direção ao medo
Em direção ao pranto
Minto, enquanto...

Esse o dragão
Encoberto por cachos de banana
Esse o nevoeiro
Adormecido da noite insana
Solicito-os e almejo
Na procissão do espelho
Na procissão do santo
Sinos, e imanto.


Raphael Vidigal

Pintura: “Hera”, de Francis Picabia. 

Pecado



Deixe-me voltar a ser criança
Que a converta intimamente numa rosa
Eximida dos pecados de outra musa
Pois que a dele é do passado
E a minha é pura
Pois que deles pus-me outro
E agora volto
A ser criança

Deixe-me voltar a ser tua rosa
Que a convença externamente numa dança


Raphael Vidigal

Foto: “Retrato de Martha Graham e Bertram Ross”, de Carl Van Vechten. 

Do Sagrado ao Profano




Homem
Hímen
Húmus
Herpes
Harpa


Raphael Vidigal

Pintura: “O Enterro do Conde”, de El Greco. 

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