sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O Morro dos Ventos Uivantes


tão banal
quanto um beijo
quanto um estalo

é a morte
ela acontece
e em degredo

a vida
segue
sem norte


Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "O Morro dos Ventos Uivantes", de 1939.

bashô


um dia
então
fim

como uma lagartixa
quando o corpo
separar-se da alma
nosso rabo terá vida própria

Raphael Vidigal

Imagem: pintura que retrata o poeta Bashô.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

o capital


Foi-se-me a 4ª parte
Do todo que acumulara
Só não notei pouco antes
Que tudo o que tinha faltava


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Willem de Kooning.

Memória


Teu nome escrito na areia
Com espuma o mar apagou
Ficou-me a maresia verde
Pedaço que o mar não tragou

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Degas.

Toalha branca


A gente existe pra desaparecer
Como uma mancha de café sobre
Uma toalha branca, como uma gota
De sangue na ponta da língua que
Canta. Por mais que pareça eterna
Um dia estanca. E nem mais corre,
Nem mais lateja, somente descansa...


Raphael Vidigal

Desenho: Obra de Rembrandt.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Libertação


desvincular
o teto da palha
a chuva da calha
o sal do amor

desvincular
a reza de deus
a veia do sangue
a perda da dor

desvincular
o todo da parte
o rosto dos olhos
a pele do ator

desvincular
o crime da margem
a vida da morte
o poema do autor



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Salvador Dalí.

Aviso de banheiro


A esperança é sempre a última de porre...


Raphael Vidigal

Imagem: foto do sambista Synval Silva, autor de "Coração".

Discurso de um Vagabundo


– É engraçado que a alegria tenha se transformado em ridícula,
E o sofrimento seja um motivo de orgulho. Eu chego mesmo a achar
Graça quando vocês riem e zombam do fato de eu não trabalhar, e se
Orgulham pelo contrário. Eu só acho que o riso está do lado errado...


Raphael Vidigal

Imagem: foto do palhaço Arrelia.

Aprendizes


A vida não pode ser uma chatice.
E isso é tudo o que a poesia ensina.
Desde que haja drama, humor, romance, aventura.
A vida só não pode ser uma chatice.
E isso é tudo o que a poesia ensina.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Georges Braque.

Paródia Moral


A vida é a arte do engano, embora haja tanto desengano pela vida.



Raphael Vidigal

Imagem: foto do poeta Vinicius de Moraes.

Tristes tópicos


A gente vive pra produzir ou para ter alegria?

A função do governo é propiciar alegria a seu povo.

Venderam e compraram a ideia de que a alegria virá como resultado do produto.

Mas a alegria não se produz, ela é.
(finalidade em si mesma, não leva a lugar nenhum...)



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Georges Braque.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

brumas


todas as solidões são grandes
mas a nossa é sempre mais larga
por exprimir-se num peito tão próximo
e ao mesmo tempo tão longe de nós

todas as solidões são gaiolas
mas a nossa é sempre mais concha
por espremer-se como obediente ostra
e ao mesmo tempo livre albatroz



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Degas.

A sós


Na minha absoluta solidão
Absoluta, mas não definitiva
Numa noite chuvosa de domingo
A vida, também absoluta
Entrega-me a uma compota de manteiga derretida
Cujos amarelos fios
Lembram-me do teu sorriso naquele sol de domingo...




Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Cézanne. 

sábado, 24 de setembro de 2016

Folha prateada


Quando chegar o meu ocaso da vida
Eu quero estar comovida
Como uma vã margarida
Como uma folha prateada

Eu quero estar serenada
Sem raiva ou medo de nada
No meu ocaso da vida
Como na planta a cigarra

Quando cair então
A primeira lágrima
Eu já terei descansado



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Mondrian.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Floresta


Ficaste tanto tempo distante...
... Até que desapareceram tuas marcas no meu corpo
Até que só restou o rasto de formigas
Não mais o peso e a pata de elefantes...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Rafael.


Ressurreição


Lembro-me de integrar-me às tuas veias
E do teu sangue na minha aorta
Quando o amor faz de nós seu seio
A vida traz você de volta



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Donatello.

Truque


A morte é uma ilusão.
Só o fato de alguém ter existido
faz com que ele ainda exista.
Memória, lembrança, saudade
são abstrações para um sentido explícito.
Sou capaz de sentir e tocar todos os meus amigos que não estão comigo
simplesmente porque os imagino.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Leonardo Da Vinci. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Cálculos


A matemática da vida é confusa.
Quem nasce depois, às vezes vai embora antes.
A divisão quase nunca é igual pra todos.
Só as dores são unânimes.
Cansei de ver a soma não dar em nada.
E as perdas se multiplicarem...
Melhor é crer nos anéis de Saturno,
as luas de Vênus, e nas pedras dos
Búzios: o sentido não pode ser exato,
como uma estrela de cinco pontas...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Salvador Dalí. 

Uma


Já me fiz palhaço
Já me fiz de lua
Já me fiz de sóbrio
Já me fiz de bojo
Já me fiz de arauto
Tive muita glória
Já me fiz de pássaro
Já me fiz de moço
Já me fiz palavra
Já me fiz de osso
Já me fiz de carne
Já me fiz de cores
Tive muita fome
Já me fiz sonata
Já me fiz ciúme
Já me fiz espada
Já me fiz de flores
Já me fiz de vaca
Já me fiz de boi
Tive muita história
Já me fiz barragem
Já me fiz no coito
Já me fiz vinagre
Já me fiz estrume
Já me fiz fidalgo
Já me fiz impune
Já fui condenado
Já me fiz de luto
Só não fiz de morto
Que a vida é grande
Que a vida é muita
Embora só espuma...



Raphael Vidigal

Pintura: detalhe de obra de Grünewald.

O Descobrimento do Brasil


Eis que,
            Na data exata,
                                   Do dia 22,
            Mês de abril,
            Ano de 1500,

                              Treze caravelas a passeio
                        Aqui ancoraram por desvio da Índia

E perceberam: mais vale um na mão a dois voando,
                            nem só de pão vive o homem,
                            o mar é a bochecha da terra,
                        Romeu é o queijo Julieta a goiaba




Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Debret. 

Colônia


A seriedade veste roupas largas, compridas, escuras,
Trazidas de Portugal.
Deixa-nos como bobos,
Neste calor dos trópicos.
Nem bufões e nem palhaços,
Tão somente homens e mulheres de negócios.
Aos píncaros do coração em pandarecos,
E o suor nas coxas.
Mas a seriedade não veio para brincadeira,
Veste roupas azedas, tristes, graves,
Trazidas de Portugal.
Ficamos em salseiro,
Sem saber como se quebra o coco,
Afinal somos  a colônia
Fiel colônia.
Colonizados comemos peru com o rosto em lágrimas
Pingos espessos como sangue de frango ao molho pardo,
E cumprimentamo-nos com cuidado,
Para que não se amasse a gravata,
Nem o vestido de muitas guirlandas.
Somos árvores de Portugal,
Aqui plantadas
Trazidas como os escravos,
Como mangas.
A seriedade veste roupas largas,
Donde um olhar matreiro espia por seu buraco,
E diz: – Vem cá, portuga!
Vê se vira sapo,
Nesta terra em que tudo planta, tudo colhe
E tudo se dá,
Não basta plantar bananeira
Tens que ser muito macaco,
Vê se separas o joio do trigo,
Para não pagares o pato!




Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Toulouse-Lautrec.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Gesso


Os meus sonhos
Me tornaram
O que sou
Tal no osso
Como na cara:
Olhos inchados
Boca calada
Peito em frangalhos.
Os meus sonhos
Me tornaram:
Via de dores
Costa de hangares
Bucho de voos
Pele marcada.
Os meus sonhos
Me tornaram
O que o gesso
Torna quando nasce
O que torna a madeira
Quando o escultor lhe
Fere a carne
E arranca do centro
Da forma anônima
E casta
O que ri
O que chora
O que canta
O que morre.
Os meus sonhos
Me tornaram
Pedaço de vida
Passagem transposta
Cor de sangue e suor: aroma de lágrima



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Toulouse-Lautrec.

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