domingo, 29 de maio de 2016

Vã filosofia


A vida não é matemática
Tampouco a vida é artística
A vida é flauta e goiaba
Talvez com um pouco de tinta


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Gauguin.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Passagem


As dores se substituem
Como uma planta devora outra
Como um arbusto toma a calçada
A dor de arrancar os dentes
Já não há mais; porém a dor
Persiste, por outros meios
Toma corredores diversos
Secretas passagens e me
Encontra, estendido sobre
A calçada, sobre o corredor
Coberto de plantas, com arbustos
Por sobre o peito, por sobre os dentes
Por entre muros. Entre muradas.
A dor de arrancar os dentes
Da minha infância, já não há mais
Porém uma dor mais lânguida
Que se esgueirou, e difundiu-se
Em meu corpo todo. Uma dor de amor,
Uma dor solitária, uma dor de dente
Só que intratável. É dor carnívora,
Embrionária; caçou-me os ossos
Cortou-me as asas, a dor de tudo
De estar na vida, dor de gnomo,
Porém sem fada. A dor de
Arrancar os dentes, da  minha
Infância já não há mais.
A dor é outra, a dor presente
É a que dói mais. A dor de agora
Intermitente, inalterável.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Jackson Pollock.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Poligamia


O mundo é muito concreto.
A vida é mais abstrata.
A arte não te prepara pro mundo.
Para isso existem as indústrias,
Os telégrafos e as galochas.
A arte ensina o ciúme,
A loucura e a poligamia.
A arte ensina a ser livre,
A desamarrar os cadarços
De uma gelatina,
Torcer os bigodes dum monge tibetano
Responder ao discurso da pátria e da família.
O mundo é pra calcular, tirar carteira de motorista.
A arte te ensina pra vida
E nem todas as suas ciladas.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de William Turner.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Mistérios da Liberdade


Antônio estava atônito
Francisco estava franciscano
Zé estava zonzo
Marco tinha mau humor.
Por sorte me chamo Raphael,
e no momento estou intrigado...




Raphael Vidigal

Imagem: tatuagem.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Tártaro


Há tártaro nas janelas.
Existe tártaro nos poemas.
O tártaro, onde quer que ele esteja,
não é evasão de morte,
mas impressão de vida.
O tártaro dá plasticidade à cena.
O tártaro suja o poema.
O tártaro confere ao ambiente
sua condição espessa.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Daumier. 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sacrifício


Tenho o sol numa mão
E uma gema na outra
O sol se derrete em sermão
A gema é a essência do ovo

Tenho o sol numa mão
E uma gema na outra
O sol me promete amplidão
A gema me lembra do corpo

Tenho o sol numa mão
E uma gema na outra
O sol enferruja meus ossos
A gema me pinta um rosário



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Giotto.

Rancores


Não convém reclamar de barriga cheia.
Nem chorar pelo leite derramado.
Os fatos dependem dos fatores,
Assim como os fados
Das fadas.
E eu te digo
Sem medo de errar:
Você irá chorar sobre a minha cova.



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Pablo Picasso. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Comparações


Estava com o coração na mão.
Mas era fogo de palha.
Foguete molhado.
Baita balde de água fria.
Até São Tomé caiu no pulo do gato.
A cabeça, antes no mundo da lua,
Queria agora era soltar os cachorros.
Mas como, se tinha os pés atados,
Uma mão na frente e a outra atrás.
A fadiga de engolir sapos,
Passar o carro na frente dos bois.
Se o mundo fosse menos abstrato,
Bastava uma equação matemática,
Separar o feijão do arroz,
O joio do trigo,
Pôr a farinha no mesmo saco.
Estava com o coração na mão,
Mas era fogo de palha.



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Egon Schiele.

Mapa


Poeta das horas mortas
Dos dias cinzentos
Da flor sem espinho

Poeta do olho sem brilho
Da dor sem saída
Do amor sem caminho

Poeta de Antônio das Mortes
Do sol, do cangaço,
E de Virgulino.

Poeta sem esperança
Poeta da caatinga
Para quem a vida é só um destino.



 Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", de Glauber Rocha.

Chiste


Excesso só atrapalha quando falta



Raphael Vidigal

Imagem: Ilustração de Milo Manara.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Triste Figura


Sois um poeta andante
Um poeta desprevenido
Porém não tenho Cervantes
Muito menos Sancho de amigo

Não tenho também Rocinante
Dulcinéia não me espera aos gritos
Sois um poeta Quixote
Só me resta os moinhos de vento...


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Modigliani.

Rebeldia


O segredo da vida é seguir as convenções.
É não se rebelar.
É estar sempre disposto a seguir o chamado dos dias, das horas, dos anos.
O segredo da vida é cumprir o seu papel na sociedade.
É carregar flores nos enterros.
E jogar pó-de-arroz nos casamentos.
O segredo da vida é seguir uma rotina de trabalho.
Cumprir a carga horária.
O itinerário.
Percorrer os caminhos que apontam as placas.
O segredo da vida é estar sempre disposto.
Bem alimentado.
Praticar exercícios físicos regulares.
Manter o corpo são.
Sã a alma.
Estar livre de toxinas regulamentadas.
Mais ainda das daquele outro mercado.
O segredo da vida é buscar o ouro.
Cultivar o ouro.
Não permitir que ele lhe caia das mãos.
O segredo da vida é ser ambicioso.
Procurar aumentar gradativamente a sua fortuna.
Melhorar de vida.
Melhorar a condição dos próximos.
Comprar uma melhor geladeira, máquina de lavar, televisão de plasma.
Preocupar-se com as coisas práticas.
Procriar.
Aos filhos doar-se.
Matriculá-los nas melhores escolas.
Prepará-los para o vestibular.
Prepará-los para a vida.
E seus segredos de vestiário.
Não consta no segredo da vida tomar uma boa ducha,
Deliciar-se em divagações inúteis.
Chorar dentro da água.
O segredo da vida é conter.
O segredo da vida é economizar.
O segredo da vida é de bula. A poesia é o contrário.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Picasso.

sábado, 7 de maio de 2016

Gramas


A vida é a medida do nosso anseio.
A vida não é o que se passa fora, mas dentro.
A vida é desespero, morte e atrevimento.
A vida é a medida do nosso atrevimento.
A vida é o que se passa fora, e não dentro.
A vida é esperança, luta e desespero.
A vida é a medida do nosso desespero.
A vida é o que se passa fora e o que se passa dentro.
A vida é a medida do nosso poema.



Raphael Vidigal

Imagem: obra de Froiid. 

Três tigres tristes


Há um romântico em cada um de nós.
Há um dramático.
E também um cômico.
Com freqüência o cômico passa a perna no romântico,
Que se estabaca no chão.
Ao que o dramático chora em cântaros.
Nesta hora o cômico lhe oferece um lenço.
O dramático enxuga o prato,
Enquanto o romântico colhe flores.
Mal desconfiam os dois que do lenço sairá uma pomba,
E das enormes e amarelas flores um esguicho d’água.


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Desali.  

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Túnel


O limite existe, mas é inventado




Raphael Vidigal

Imagem: obra de Emanuel Mosh.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Pena capital


Poeta da noite sem fim
Poeta desperdiçado
O mundo com tanto dinheiro
Não lhe paga nem 1 centavo

Poeta procura entender
A roda mesmo enguiçada
Não quer saber de viver
Mas de girar o mercado

Poeta quando morrer
Em sua cova terão escrito
Em vida teve fortuna
Morreu todo esfarrapado


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Alexandre Rato.

Contradições


Sou um artista crônico
Dono de uma gastrite aguda



Raphael Vidigal

Imagem: obra de Alexandre Rato.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

e. e. cummings


no osso do osso do osso da liberdade
no cálcio do cálcio do cálcio do amor
deserto de mágoas, deserto de pudores
amar como quem ama uma flor
liberar como quem libera suor
no osso do osso do osso do amor
no cálcio do cálcio do cálcio da liberdade
de mágoas deserto, deserto de pudores
amar como quem ama o suor
liberar como quem libera flor



 Raphael Vidigal

Pintura: obra de Clara Valente.

Ora, bolas


A linguagem é o refúgio da alma



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Baba Jung.

domingo, 1 de maio de 2016

Ranzinza


Tenho uma alma velha.
E um corpo cada vez mais finito.
Tenho uma alma que engendra
Pirotecnias e malabarismos.
Mas tudo no campo do clássico
Me ojeriza o pós-modernismo.
Tudo no campo do antigo
Me arrepio com novas gírias.
Abraço-me aos meus jargões,
À descoberta das Índias,
Tudo o que já foi visto
Noutro tempo
Por meus antepassados
Sumamente me interessa.
Tudo o que já foi descoberto
E empoeira o baú dos milênios
Cabe à minha cabeça
Por definição:
Ranzinza.
Tal qual um relógio de bolso,
Como o que carregava o coelho de Alice.
Tal qual um relógio de sol,
Que ensinava o tempo aos povos incas.
Tal qual um poema na pedra, com suas escrituras paleolíticas.


Raphael Vidigal

Escultura: obra de Antonio Canova. 

  ©Caminhos dos Excessos. Template e layout layla-imagem banner: tela de Salvador Dali

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