sexta-feira, 26 de maio de 2017

Augúrios


Durante a nossa vida iremos conspirar contra o governo
E ter sonhos de que um dia venceremos
Durante a nossa vida vamos avistar a mulher amada
E acreditar até o fim que ela é perfeita
Durante a nossa vida mais que tudo perderemos nossos ganhos
Uns amigos, pais e mães, e as namoradas
Durante a nossa vida talvez o tempo nos escape sem alarde
Já que as máquinas abafam o som dos pássaros
Durante a nossa vida nenhum dia terá fim e nem começo
Será tudo a espera doce e triste do milagre


Raphael Vidigal 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Camurça


A decomposição do corpo em descanso.
A boca na varanda, os olhos no sobrado.
E toda a sala ampla iluminada de órgãos.
A decomposição do corpo está impassível.
Não se exaure. Há gritos no porão. E choro
No sobrado. Soluços na varanda. Porém no
Vão do sótão a mão é inerte, e nada afaga. A
Sala iluminada engole o corpo igual camurça.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Helena Almeida.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Resíduo


Aceita as ilusões
e a dor que elas te trazem
Sempre fica alguma coisa
na derrota, no naufrágio
como o tártaro no dente
como a crosta que se instaura
como o lodo em nossos lagos –
o que há no fim do copo
é tão somente a ilusão materializada
pois bebe o vinho
e junto engole a vã ressaca –
que é dos mares: ou deixa que o concreto anestesie a sua alma


Raphael Vidigal

Imagem: Obra de Adriana Varejão.

papiro


a morte olha de soslaio
a vida entra de esguelha
entre o berçário e o enterro
nossos sonhos são
papeis de
vento

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Frida Kahlo.

Visão


Tudo está envelhecendo
O bolo de maçã
O asno
O feno

Nada fica sempre pleno
A hora
O nascimento
O beijo

Tudo fica sempre pleno
Nada está envelhecendo

A hora da maçã
O bolo de beijo
O nascimento do feno...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Cézanne.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Têmpora


O relógio de meu pai
no braço da cadeira
não está aonde deveria.
Pois o braço da cadeira,
não pulsa, não tem veia,
não sente as contrações do dia.
Não se absurda com a existência.
O relógio de meu pai no braço da cadeira
É como uma alma sem têmpora


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Magritte. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

lírio partido


mesmo
que o rio esteja em tom negro
que a grade esteja no espelho
dar um sorriso com os dedos

que o lírio esteja partido
que o mal esteja em silício
dar um sorriso com os dedos
mesmo

que o dedo esteja na boca
que a boca esteja em tom negro
que o mal esteja no espelho
dar um sorriso com os lírios

mesmo
que a grade esteja na vida
que a morte esteja na vida
que o povo esteja em degredo

dar um sorriso com os dedos
quebrar o espelho do medo
puxar a mão pelo lírio
colher a flor do silêncio


Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "Lírio Partido".

mantra da resistência


banqueiro não é bancário
espelho não é salário
índio não é escravo
poema não é esmalte.


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Amilcar de Castro.

mínima


O trabalho danifica o homem



Raphael Vidigal

Imagem: obra de Hélio Oiticica.

Ponto


Às vezes esqueço
que não estamos mais juntos
e te espero com a mão abanando
como no ponto de ônibus.

Não há outra saída
senão a de me acostumar com a sua ausência.
Estou envolvido
na dor que te dei

com a mão para o ônibus
como num ponto abanando
e não há saída


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Edward Hopper. 

Deglutindo Décio Pignatari


Sou contra o contrário e a fa-
Vor do favorável. Assim na pu-
Lítica como na arte sou a fa-
Vor do contrário e contra o fa-
Vorável assim na arte como
na política lítica tica ica a sim


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Lygia Clark. 

Cravos


Ainda não me acostumei
Ao teu desaparecimento
Com a óbvia ausência do
Teu corpo. E o irrefreável
Tempo diz-me tudo: você
Não veio e não virá. Estou
Tão só no espelho como
No mundo. Você que suma
Como achar conveniente


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Modigliani. 

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