sábado, 25 de outubro de 2008

O Óbvio Ululante:


Nelson Rodrigues foi, a vida inteira,um misto entre o sagrado e o profano. Foi tarado e santo, gênio e louco, revolucionário e reacionário, e por fim ninguém melhor do que ele próprio para defini-lo: foi um anjo pornográfico.

Suas peças e crônicas nada mais são do que o retrato dele próprio e do que o cercava e moldurava.Como todo artista, sua obra está completamente contaminada dele mesmo, da flor da pele ao pó do osso (como diria Caetano Veloso).

A complexidade de Nelson Rodrigues, suas peças, seu jornalismo anti-idiota da objetividade está intimamente ligada ao seu temperamento controverso e polêmico, e daí vem toda a sua riqueza.

Pois Nelson Rodrigues foi um autor que sempre desprezou o maniqueísmo católico e posteriormente comercial, embora ele mesmo carregasse no pescoço uma cruz e quisesse ser reconhecido pelos grandes veículos, intelectuais e público.
Embora fosse adepto de uma boa roda de amigos jogando conversa fora e fumante crônico jamais colocou uma gota de álcool na boca, e a boemia não fazia seu estilo.

Teve diversas mulheres, vários casamentos, muitos filhos, e era devoto incurável do amor eterno.

Escrevia sobre estupro, incesto, adultério,e se entregava de corpo e alma quando conhecia a nova mulher amada, que idolatrava com cartas,presentes e flores e sabia e dizia que todas elas gostavam de apanhar.

Mas com uma personalidade como a sua não poderia ser diferente. Nelson Rodrigues era nada mais do que um passional ilustre, capaz das mais belas e ternas declarações de amor e dos maiores insultos e desaforos, indo de um para o outro em questão de milisegundos.

E embora o tema de suas peças fosse uma constante, era totalmente imprevisível.Ninguém jamais sabia o que esperar de Nelson Rodrigues, a não ser algo grotesco e genial.
Mais do que o exagero presente em tudo o que ele escrevia, o escracho, o deboche, a ironia, Nelson Rodrigues trabalhava, comia, e vivia movido por um motivo único e insaciável, a paixão.

A despeito dos adeptos da objetividade que se apoderavam agora do cenário jornalístico brasileiro Nelson carinhosamente os classificava de idiotas e seguia assistindo a espetaculares vitórias de seu Fluminense por 0x2 contra o Botafogo, a crimes já solucionados e cercados por mistério e suspense, a fatos corriqueiros da vida humana que eram comparáveis a uma ópera na qual continuava a se gritar "Bravo" horas, dias, meses depois de seu encerramento.

Pois a vida humana nunca foi tão interessante quanto a criatividade de Nelson e jamais alcançaria um grau tão supremo de beleza e genialidade quanto a que a sua imaginação produzia.

Fraco, adúltero, incestuoso, monstruoso, criminoso, o lixo humano que se estabelecia na realidade e nas peças de Nelson era tão pequeno quanto o sentimento de querer tratar os fatos da vida humana de forma objetiva, sendo escritos por uma outra vida humana, presa e parte presente do universo a ser descrito.

Nelson Rodrigues desprezou eternamente essa tentativa de se abster da parcialidade, mesmo porque não conseguiria, nem ele, nem qualquer idiota com esse pensamento.

Porque acima de tudo, repito, a obra do autor estará sempre contaminada por ele, e segundo porque Nelson era um apaixonado constante, que tinha a sua ótica de ficcionista para tudo, e em todo canto enxergava um buraco de fechadura para espiar, mas era acima de tudo um amoroso, e como "O amoroso é sincero até quando mente", está perdoado por todas as invencionices que espalhou por suas crônicas e textos, no fundo ele estava apenas nos mostrando o "óbvio ululante".
Raphael Vidigal

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