segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Oração para tia Mac

 


A taça de sorvete quase aristocrática me lembra você.

A brasa acesa no cigarro branco. O telefone pendente do gancho.

A taça é de vidro. O cigarro, feito de papel. E o telefone, talvez, de plástico.

Você foi embora num instante, ao contrário das longas epopeias que contava.

A última vez que te vi, você tinha os cabelos presos num coque, as mãos já tão frágeis, compridas e magras. E me contou a aventura que teve num dia em que saiu de carro pela cidade, mas o que me recordo é de seu tom de voz rouco.

Antes, quando visitamos sua irmã, minha tia Inês, você disse, em instinto premonitório “queria te ver antes de morrer”, ainda sem saber da doença.

Na hora da foto, você se recusou a aparecer, como de costume.

A agitação de seus gestos, o coração quase sempre pulando da boca, inflamado pelas paixões políticas e do esporte, parecia não aceitar a imobilidade que, ao eternizar, congela os instantes.

Você permaneceu de lado, olhando para nós, fumando seu cigarro, e eu retive na lembrança essa imagem sem precisar da imagem.

Neste dia, você estava fascinada pela vida, pralém da amargura e das mágoas.

Porém, o que ficou de ti pra mim foram as histórias que meu pai me contava.

A Marisa da infância que eu não conheci.

A criança eternamente guardada no corpo da senhora com seu cigarro.

Minha tia Mac que escrevia contos eróticos sob o véu de um pseudônimo.


Raphael Vidigal Aroeira

09/10/2023