segunda-feira, 11 de março de 2013

A Rosa



Desejo protegê-la
Num abraço de aço
Envolvê-la
Num abraço de planta
Ser-te força e carinho

Mas quem sou eu para desmentir as palavras da própria rosa?
“Apenas” a amo
Conheço-lhe sabor e veneno
O abrigo e a expulsão.
E digo-lhe: és humana.
Cujo pecado redime o mundo,
cora-lhe as ancas.

Pois que ela, A Rosa, saltita
por entre arbustos,
pula o muro,
arrancando-me a cruel felicidade.

Espero que nos banhemos juntos,
Aguentemos ao sal,
E recebamos, de boca e coração abertos
A água serena do planeta.

Almejo a fraqueza e contemplação de um velho somente a teu lado.


Raphael Vidigal

Imagem: Rosa bordada por Cláudia Lis. 

Cartão de aniversário




Pai,
Posso dizer
Que as aparências
Nos conclamam,
E a cada dia
Que me sinto
Mais parecido
Contigo,
Mais me “orgulho”
(essa palavra de pano)!
Ante o sentimento
Que plana!

Beijos do seu filho,

Te amo!


Raphael Vidigal

Escultura: “São Francisco de Assis”, da catedral de São Sebastião, Rio de Janeiro, por Humberto Cozzo. 

Pétala



Proponho que a gente nunca mais se fale...
            A palavra gasta mostrou-se artifício inócuo na procura vã de uma compreensão
            Uma forma de inteligência defasada: a palavra.
            Proponho o silêncio absoluto.
            O mais amplo de todos os silêncios ouvidos.
            Entre duas desérticas almas nem o pingo do oásis imaginário irá soar.
            Somente o reflexo de duas conformidades tocando-se no escuro, na sombra, na ilusão, no desconhecimento contínuo e inalterável:
            O sonho.
            Escutei essa profecia
(dormindo).
            Tua boca tocou a minha: papoula, polpa, fruta: escorrendo, líquida, indescritível. Silenciosa.
            Acordei, vesti pijama.
            Somente senti-la – não pensar, nem tergiversar, muito menos: dizer.
            Como uma rosa desfolhando-se, uma pétala.
            Abrindo-se:
           
            Raphael Vidigal 

Poemar




O boi
muge
pra galinha
cacareja
O galo

o gole
no gargalo
da cachaça
feita em casa
por Quiquito,
o bardo.

Maria canta
uma profecia
rosa da infância
Seu Geraldo
e seu arado
capinam longas viagens.

Mosaico de vozes.
Coral disforme.
A camponesa colhe morangos no campo.
Sobre uma bola a bailarina está: se equilibrando.
O sorriso atrevido
no rosto,
no corpo,
na alma: da mulher: meu amor: cadê: café
?


Raphael Vidigal

Foto: “A colheita de café na fazenda Irmãos Dutra, Manhuaçu, Brasil”, de Sebastião Salgado. 

Barquinhos de verde e azul



Imagino aqueles barquinhos de jornal, feitos por crianças inábeis, em banheiras que em suas férteis imaginações despudoradas representam a imensidão do oceano ainda a ser navegado...

Penso que “a gente” devia ser eterna criança
E as expectativas deitarem-se
Em nossos colos
Como pássaros de
(bela plumagem)
Verde e azul

O azul da pureza
Do verde, esperança

Pois que o maior prazer da vida, as pessoas teimam em não descobri-lo, é simples, gratuito, mas nem tão fácil encontrá-lo, pois a companhia é o fundamento de tudo: rir, imitar personagens, cultivar palhaçada. O maior prazer da vida.

Chaplin será eternamente nosso maior confessor.


Raphael Vidigal

Ilustração: "Golfinhos no pôr do sol", de Carmen Thiago. 

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