terça-feira, 28 de junho de 2016

Quadrinha


... A faca do tempo me amola ...
... A pia do tempo me fia ...
... O tempo da faca me aloja ...
O gume da faca me finda



Raphael Vidigal

Pintura: "Anjo do Evangelho", de Emeric Marcier.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Alma


Adivinha-me

                        Adivinha-me quem sou, adivinha?

            Eu que não tenho rosto, eu que não tenho capa, eu que não tenho corpo

                                               Eu que não tenho máscara

                        Adivinha
            Adivinha-me quem sou, adivinha?

                                   Eu que não tenho boca, eu que não tenho olhos

                        Eu que não tenho sono,
                                                                       Eu que nunca me acordo

                                   Eu que não tenho luz,
                                   Eu que não tenho escuro...

            Adivinha-me, Adivinha-me
                        Quem sou,
                                   Adivinha?

                                               Eu que não tenho eu
                                               Eu que sou sem palavra

Eu que não tenho língua,
Que desconheço idioma,
Eu que não queimo ao fogo,
Que não congelo no frio,

                                   Adivinha-me
                                   Adivinha-me
                                   Adivinha-me

Adivinha quem sou,
                                   Adivinha?

                        Eu que não tenho sexo,
                        Eu que não tem frase,
                        Eu que não tenho som,
                        Eu que sou sem anáfora,

Adivinha-me, Adivinha-me, Adivinha-me, Adivinha-me quem sou? Adivinha?

                                               Vocês me chamam de alma

                        Chamo-vos sem dizer nada...



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Hieronymus Bosch. 

Pedido


Que bom ver-te agora sem me teres pedido, (alegria)
                                  
                                                    afinal não somos mais que espiga e milho.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Van Gogh.

Feitiço


Começa a dar-me o sono
Formas das mais diversas
Os  opróbrios de um corcunda
As glórias de um Príncipe Persa

Primeiro conquisto a cigana
Depois  a Princesa da Pérsia,
Bem antes que eu me aprisione
O sol desprende as arestas,

Acorda-me ao que me resta;
Nem Príncipe nem corcunda,
Nem Quasimodo ou Farnésio,
Apenas um reles poeta.

O feitiço retorna ao cálice,
Recrudesce em botão a flor,
Há guizos em meu chapéu.
Um bobo da corte, bufão das estrelas...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Frans Hals.

domingo, 19 de junho de 2016

Remédio para aliviar a dor


Conheço a dor da perda
A dor da derrota
A dor da derrocada
Conheço a dor da vitória
A dor da despedida
A dor da culpa
Conheço a dor do amor, como não!
Essa até me chama pelo nome.
Conheço a dor do pecado
A dor do orgasmo
A dor da ternura
Conheço a dor de pai
A dor de filho
A dor de barriga
Conheço a dor do barulho
A dor do silêncio
A dor do martírio
Dores de todas as formas,
Servem de enfeite, moldura e retrato.
De todas essas dores, porém
 A mais pura
É a dor do parto.


Raphael Vidigal

Pintura: "O Nascimento de Vênus", de Bouguereau.

Toda unanimidade


Só sei que nada sei
Diz o filósofo grego
Só sei que ignoro tudo
Diz o filósofo turco
Só sei do que desconheço
Diz o poeta barbudo
Só sei do que não entendo
Diz a poetisa sem modos
Só sei que o arco é cinza
Só sei que o fogo é brando
Só sei que o gelo queima
Só sei que o amor envolve
Só sei que o silêncio é lã
Só sei que o barulho é grão
Só sei que houve essa manhã
Não sei se amanhã virá
Mas tu que soubeste tudo
Tu, sábio ignorante
Em coro desafinado
Coro do Deus Tupã
Só sei que o poeta é burro
E o filósofo puxa a carroça.
Só sei que nada sei
Só sei que ignoro tudo
Só sei do que desconheço
Só sei do que não entendo
Só sei que o amor é brando
Só sei que a lã envolve
Só sei que o arco queima
Só sei que o silêncio é grão
Só sei que o barulho é cinza
Só sei que houve esse amanhã
Não sei se a manhã virá
Diz o poeta sem modos
Diz a poetisa barbuda
Diz o filósofo grego
Diz o filósofo turco
E todos eternamente
Vão repetindo em conjunto...


Raphael Vidigal

Escultura: "O Pensador", de Rodin.

Impávido Colosso


Têm-se que entrar bem fundo,
Pra compreender o mundo.
Tem que se escutar bem fino,
Pra entender o mosquito.
E a poesia, que não tem rima,
Faz-se com gelatina


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Miró.

Mágoa


Se eu simplesmente não me importasse
Seria fácil – ignorar o retrato,
Ignorar o teu beijo – em outro rosto,
Em outra boca.
Ignorar o domínio
Desse teu corpo
Que em mim se extingue,
E a outro entrega
Os teus sabores.
Se eu simplesmente não me importasse
Não haveria retrato – nenhuma cinza
Sobre o que houve.
Nenhuma lágrima – sobre a moldura.
Ignorava o colírio,
Não acudia ao sonífero,
Pra me entregar aos mistérios
Da noite longa – em que te ouço.
Porém não tenho controle,
Sobre teu corpo,
Sobre o que sinto
Nem tua boca
Que em mim aflige
Dores e cruzes,
Pois já não coincidem – os nossos sonhos,
Pois neste espelho falido – sou só e louco.
(Que a mágoa é fruta com vida
Do amor já morto).
Se eu simplesmente não me importasse
Não haveria poema.
Talvez houvesse cinismo,
O tédio, enfim, com teu bastão,
Arrefecesse as montanhas,
As dunas, as transparências,
Os mares em que nos molhamos,
As estrelas de nossos delírios,
E então se acalentaria,
Um pássaro morno,
Como termômetro,
E mediria o suor, de tempos inconstantes.
E esse pássaro vive, mas está morto...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Albert Pinkham Ryder.

Análise


Eu sou um cínico, um hipócrita, um demagogo,
Um convertido, um estrupício, um inseto,
Um estúpido, um arvoredo, um arco-íris,
Eu sou um cílio, uma lâmina, uma gilete,
Uma esperança, um abono, uma goma de mascar,
Eu sou um suspiro, um arroto, um espectro,
Sou auto-imune à minha dor de poeta.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Pablo Picasso.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Coincidências


Engraçado como me embrenho
Em circunstâncias peculiares.
Sinto-me o centro do mundo,
Numa multidão, convicto.
E ainda assim reafirmo:
Não há lugar no planeta, posição ou estilo,
Melhor para se estar ou ser,
Do que sóbrio, no cerne e sozinho.
É, porém, solidão consentida,
Ciente que ao arder a chama
Quando até o gelo derreter de frio,
Poderei voltar para o centro
Embora ali eu bem esteja,
Bêbado, lateral e sozinho.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Magritte.

Desterro


Duro como pedra
Como rocha calcinada.
Por dentro, “vale de lágrimas”
Por fora a soma de nada.

Como pedra sob a chuva
De tanto e tanto lavada.
Mantém-se cinza por fora
E azul no que lhe consagra.

Azul duma escuridão.
Não do céu e nem dos mares
Assim como são as lágrimas
Das pedras cinzas na praia.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Renoir.

sábado, 11 de junho de 2016

Perspectiva


Imagina o nosso tédio se descobríssemos de antemão o mistério da vida?




Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Edward Hopper.

Cinzas


Vou sumir sem deixar vestígio
Vou sem nunca ter vindo
Vou como o terremoto
Que deixa mortos e feridos
Sobre os quais ergue uma atmosfera cinza,
Cálida e invisível.

Vou como os tamboretes
Vou como os dromedários
Fino igual gilete
Desconfiado como uma anta.

Com a intempérie dos ventos
E a denúncia dos sudários.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Edvard Munch.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Abandono


Me dói uma solidão de cactos,
A solidão da tarântula,
E dos retratos.

Dor que nasce como carne,
Espalha como pus,
Inunda igual vinagre.

A dor de todos os desertos,
Dor de todas as mães,
Dor de todos os padres.

Tormenta igual a do Criador
Que o Mundo Criou
Pra nele abandonar-nos.

É dor porém em branca cor, tem sabor de água.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Michel Seuphor.

Farfalhar


Uma única flor
Uma miséria úmida
Labiríntica
Enfeitiçada
Ensopada de viço
Recôndita de banha
Essa flor farfalha
Espalha gotas no ar cinzento
A miséria continua
Ainda mais molhada
Sorrateira, embaraçada
Vem úmida qual geada
Não é mais o orvalho
Agora ressente-se de abóboras
Vêm os gerânios espalhá-la
Gera o inverno em seu ventre úmida
Desembaraçado, tolerante
Pisca para o hemisfério sul
Pisca para o hemisfério norte
Abre-se numa linha longitudinal
Abarca abóboras, gerânios
Terra molhada de orvalho
Terra úmida de geada
Desfalece
Morre
Em sua miséria úmida
Brota uma única flor
Enfeitiçada


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Manet.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Vitória Régia


... Para que a vida vaze...
Neste ato ela te vaze inteira
Este ato líquido
Este acto impronunciável
Candeia, cadente
Para que a vida vaze
... Como uma lua cheia...
Como uma rã sem casa
Uma Vitória Régia
Aberta, molhada
Circunspecta, dilatada
Para que a vida lhe vaze
Inteira
Escorra de seus calcanhares
Escorra por entre os seios
Feito leite pós-parto
E você a vaze
Nela que de ti vaza
Como se fosse teu o peito
Tua a boca ao escorrer do leite
A retroalimentar-se
Para que a vida vaze
E você se ajoelhe
E você agradeça
Enquanto a vida vaza



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Monet.

docilidades


gosto de você
                        pra chuchu

não tenho culpa desse amor de framboesa

            gosto de você
igual que nem pimenta

            não tenho culpa desse amor de
                                                                       cerejas

                        gosto de você além da conta
                                   fora de medida


                        não tenho culpa se ao pular você me nasce na cerca.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Rafael. 

Ossos do ofício


Falou e disse
Mas não disse
Nada. Era um
Poeta, vieram
A saber mais
Tarde.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Mondrian.