quarta-feira, 29 de março de 2017

O Lagarto do Sorriso


Engraçado, faço o que sempre fiz: leio, escuto música, vou ao teatro, assisto filmes, vez ou outra uma dança ou exposição, escrevo. Mas agora me pagam pra isso. E os sorrisos das pessoas alargaram-se, ficaram maiores, diria até: mais cúmplices. Os valores desse mundo são Realmente monetário$. Nunca fiz outra coisa na vida. Antes, era o mesmo “trabalho”. Quão pomposo ando eu. Sinto falta de ser olhado pela vagabundagem...

(trecho de uma peça inacabada, “O Lagarto do Sorriso”, a ser concluída por este autor, quando ele for dispensado, a fim de que o terceiro ato ganhe em dramaticidade)


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Seurat. 

domingo, 26 de março de 2017

Alasca


um bicho
nascido para ser sozinho

um bicho
circunscrito ao próprio caminho
um bicho vulnerável,

vivo


Raphael Vidigal

Imagem: Obra de Leonilson. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

pasto


pantomimas
prosódias
e paraopebas
nada disso tem importância
quando o coração está de bucho vazio

paródias
pastiches
nada dizem a um coração inane
nem mesmo a chuva é capaz de lhe
regar os vasos sanguíneos


Raphael Vidigal 


Pintura: Mauve, de Giovanni Boldini. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

engana-se

              


              a última vez foi engano

a primeira foi enganação 


Raphael Vidigal

Gravura: Obra de Livio Abramo. 

Apartamento


Quantas vezes nos despedimos?
Porém, sem ter mesmo para aonde ir regressamos ao apartamento.
As mãos trêmulas, a garganta vazia, a sombra mocha junto aos cálculos de uma dívida irrisória.
Paredes brancas iguais a saudades,
Ígneas, deslumbrantes.
E nós ali, de bruços,
sem um, sem o outro.
Apenas contando as despedidas,
Recontando as feridas,
Rejulgando os gestos.
Cada palavra, cada riso,
e tantos, tantos cacos de vidro espalhados...
poderia ser de outra forma?
Não responde o apartamento branco,
o apelo brando,
a mão sem saudade,
calosa,
apenas suando...
certa de que o pranto virá em seu socorro.
Nada vem, só no eixo permanece a despedida
Cética e rumorosa
por entre os poros das paredes brancas...


Raphael Vidigal

Gravura: Obra de Livio Abramo. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sibilar


vivi com a emoção
à flor da pele
os nervos de aço
ficaram em frangalhos
a língua afiada
nos dentes
hoje uma língua de sogra
como o olho de sogra
que já foi gordo, outrora grande
pois nunca meti o nariz
aonde não fui chamado
puxei a orelha
peguei no pé
estalei as bochechas
nem tudo na vida é ditado
apenas vivi à flor
da idade
na pele marcada
de burro fugido
sem cor


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Matisse. 

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