quarta-feira, 30 de março de 2016

Vingança


Não sou água com açúcar
           
Por isso você está no sal...



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Cèzanne.

domingo, 27 de março de 2016

Costela


Poesia é estória sem pé nem cabeça
História com língua afiada
E orelhas de abano


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Salvador Dalí.

Gênesis


Poesia vem da natureza
É tão natural quanto dar nó em pingo d’água
E tapar o sol com a peneira



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Monet.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Signos


Estou num mato sem cachorro
O gato comeu minha língua
Vou acabar pagando o pato
Pois nem que a vaca tussa
Darei bom dia a cavalo
O que me faz engolir um sapo
É cada macaco no seu galho
Chegou a hora da onça beber água.

Raphael Vidigal

Pintura: obra de Hieronymus Bosch. 

Motivo novo


Branco como neve
Negro como o sol
Um menino nasceu para a Páscoa
Trouxe chocolates em seu anzol
O seu corpo era feito de vinho
O seu sangue era feito de pão
Alguns o chamavam Francisco
Outros só de João.

Raphael Vidigal

Pintura: "Ressurreição de Cristo", de Rafael. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Encíclica


Já não se fazem poetas como antigamente...

Hoje em dia são todos uns crápulas,
Plagiadores, demônios.

Noutro tempo o poeta era um anjo,
De chifre, com rabo
E tutano.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Leonardo da Vinci. 

Automóvel


Antes de ser esteta
Sou uma bicicleta

Antes de ser autor
Sou o ronco do motor

Antes de ser poesia
Eu era tão somente uma buzina


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Jackson Pollock.

Piada de mau gosto


A pieguice é prima da demagogia
Assim como o cinismo da ironia
Sexo mesmo só entre
A broa e a lingüiça

Sem duplo sentido!



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Max Ernst.

Seja marginal seja herói


O artista é um fora da lei
Que mata a família e vai ao cinema

O artista joga sem ficha
    Come sem dinheiro

Não deve haver incentivo para o artista
Para o artista só deve haver prisões, limites
O artista tem de pular a cerca
Deve rolar sobre o óleo diesel
O artista cria uma onça em seus testículos
E uma leoa em seu útero
O artista trapaça,
                                   Violenta,
                                                           Espanca
A moral e os bons costumes
O coro do artista é estrume
E o barro é seu instrumento

                 Todo artista é mendigo
            Condenado a morrer de fome

                  Todo artista é herói
              Assim como Joana D’Arc

             O artista vai pela margem,                          para alcançar a outra margem



Raphael Vidigal

Imagem: bandeira criada pelo artista plástico Hélio Oiticica. 

terça-feira, 22 de março de 2016

Anacronismo


Não sei vender meu peixe
Porque o meu peixe é poesia
E poesia não se pesca de maduro
Nem nasce ao meio-dia.
Poesia não aceita desaforo,
Muito menos terno, gravata e sapato limpo.
Poesia é um caso sério
Mas não está à venda
Poesia nasce quando quer
E não entrega garantia.
Poesia é coisa de preguiça;
Coisa de banzo;
Indígena
É mais fácil arrancar-lhe um cafuné
Do que moeda, ou crédito à vista.
Poesia é pior do que mulher,
E bem melhor,
           Por princípio...


Raphael Vidigal

Pintura: "O homem de sete cores", de Anita Malfatti. 

Campo de concentração


Papel aceita tudo
            Tinta
                        Tecla
                                   & absurdo


Papel só não aceita a realidade de um parafuso.


Raphael Vidigal

Pintura: "O Farol", de Anita Malfatti. 

domingo, 20 de março de 2016

Carteira de Trabalho


Reviraram a minha casa
De cabeça pra baixo
E encontraram
Um cronista crônico
Um ator atônito
Um literato lacônico
E um escultor exposto.
Na segunda revista
O cronista jazia atônito
O ator estava crônico
O literato exposto
E o escultor lacônico.
Pra suavizar
Alguns me chamam de poeta
Outros de absurdo.



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Miró.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Golfinhos


Alessandra
Dizia-me que o teu nome não era poético,
Mas como, se mesmo sem o desenho fonético
Deixava-me o coração apoplético?
Alessandra, Alessandra
Como dizer que não há poesia
Nos teus olhos que há pouco me continham
E nessa trégua, entre nós dois, sem destino?
Alessandra, Alessandra, Alessandra
Mesmo sem rima
A ti o meu coração se
Destina.


Raphael Vidigal

Pintura: "Os Amantes Felizes", de Fragonard.

Ausência


As luzes escondem o que a escuridão já revelou


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Goya. 

Árvore da Vida


A raiz, a seiva, o galho,
a casca do poema
são sentimentos
já as palavras
são

                                           borboletas...


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Paul Klee. 

sábado, 12 de março de 2016

O preço da liberdade


O preço da liberdade
São duas solidões
Três ou cinco ausências
E um cordão de isolamento.

O preço da liberdade
é ouro em pó
madeira de lei
e diamante de sangue.

O preço da liberdade
É leite do desejo
Vida entre parênteses
& beijo de gnomo. 

Raphael Vidigal

Escultura: obra de Francisco Brennand.

Trajetória


Uma vida de poeta errante.
Uma vida tão inconformada
&
Beligerante.
Uma vida feita de quadrados,
E por triângulos.
Uma vida afeita
Às madrugadas
E ao sol dos anjos.
Uma vida de poeta errante...


Raphael Vidigal

Pintura: "O Ovo Cósmico", de Salvador Dalí.

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher


Mulher, essa porção de pedra;
Essa porção de areia.

Mulher, esse sol
Essa neve;
Essa luz que incendeia.

Mulher, mesmo enquanto ela dorme
Seus olhos nunca me deixam.
Mulher; mesmo enquanto ela ceia
A fome é o seu continente.


 Raphael Vidigal

Imagem: foto da escritora, ativista e filósofa Simone de Beauvoir.

sábado, 5 de março de 2016

Máxima


Melhor uma ideia acesa do que uma palavra fria


Raphael Vidigal

Imagem: retrato do filósofo e dramaturgo alemão Goethe.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Trabalho escravo


Porque nasci com esse dom que não vale um centavo?
Talvez por que o poeta se alimente de ar.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Salvador Dalí.

Trabalho inútil


O mundo deveria pagar melhor seus poetas.
Mas é mais fácil vender um prego do que uma ideia.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Pablo Picasso.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Apocalipse


Não haverá mais cenas de desespero.
Não haverá mais escândalos pelos vidros.
Não mais se torcerá a língua até ficar ungida
Pelo vermelho de dias sinistros.
Não haverá mais o choro convulsivo.
Não mais a epilética paralisia,
O paradoxo do amor mortífero.
Somente o silêncio, tão e só
O descanso para o corpo sem exumação.
E o prisioneiro coração aflito, proibido de bombardear o sangue.  


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Francis Bacon. 

Altruísmo


O poeta carrega em si todos os sentimentos. Alguns são fingidos; outros ele interpreta.


Raphael Vidigal

Imagem: foto do dramaturgo romeno Eugène Ionesco.

Pirandello


Tudo tem dois lados; inclusive os dois lados.


Raphael Vidigal

Imagem: foto do dramaturgo italiano Luigi Pirandello.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Oscar Wilde


Só a mediocridade oferece ao esnobe condição de existência.


                                                          

                                                                 Raphael Vidigal
                                                            
                                  Imagem: retrato do dramaturgo irlandês Oscar Wilde.

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