terça-feira, 12 de novembro de 2013

Brilho


Brilho salgado brilho doce
Tua luz não se apaga espalha
Meus mares, meus ais, meus amores...


Raphael Vidigal

Escultura: azulejos de Adriana Varejão. 

Guardiã


Desculpa as dores da vida
Minha criança, minha menina, minha guardiã

Quero que a fruta
Doce da cor mais
Ilustre te penteie
Os cabelos e que
Neles o vento se
Encoste e a brisa lhe
Beije o dorso

Te amo: o desejo: me iludo


Raphael Vidigal

Pintura: "Vênus de Urbino", de Ticiano. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

FANTASIA


Pensei ter dito: o sorriso arde em sais
A carne,
Apodrece e morre.
Pensei ter dito: o abraço aperta os ais
As roupas,
Desfiam e mofam.
Pensei ter dito: ouça o coração
A moda passa.
Pensei ter dito: o erro é permanente
A vitória esgota.
Pensei ter dito: dizendo entregas, vais
A carapuça encobre.
Pensei ter dito: sapatos e acessórios
E corpo escultural
E saber matemático
Para ser amada?
A essência basta.
Pensei ter dito: independência é opinião
E não um automóvel.
Pensei ter dito: a política é necessária
E a rebeldia e o sonho são exercícios saudáveis para escapar
Dos moldes pré-fabricados
De repetir o óbvio.
E o carinho está acima de tudo.
Pensei ter dito: escolha o que lhe importa
Não professores ou faculdade
Vestibular não a torna puta ou casta
Mas a tua forma
Maleável, é reinvenção diária.
Pensei ter aberto um mundo de poemas, sons, imagens
A tocar este coração e em algum momento
Aliviar as dores,
E a vida se sentir leve e suportável
Pensei que eu tivesse dito, mas todas essas palavras calaram: porque o fato é mais importante e a fantasia não vale nada.
Desculpa os descaminhos, a escolha da palavra errada, o gesto mais duro, a força mais áspera,
Do coração de menino sem glória, febril e ingrato... 

Raphael Vidigal

Pintura: "O Balanço", de Jean Honoré Fragonard. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Abismo


“e fico mastigando a minha desorientação.” Caio Fernando Abreu

Entro: caminho entre o pântano
E o abismo das nuvens
Agarro-me ao galho ruço
Em que sinto fruir o espetáculo valoroso
Da infinita simplicidade
No entanto, refeito do susto
E ainda abismado, opaco, fundo
A poesia de desfaz e a necessidade que é real e é palpável
Não fictícia
Impõe o peso e a pata de elefantes. 

Raphael Vidigal

Pintura: "O embarque da Rainha de Sabá", de Claude Lorrain. 

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