quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Paz: debaixo do céu e da terra.


Diariamente jovens são presos no Morro e estampam a capa de jornais por posse de drogas ou crimes mais ilegais. Morro geográfico, conhecido como favela ou aglomerado, e morro que dá nome à causa.

Jovens estudantes de classe média a alta que às vezes cursam Odontologia, outros Gestão Ambiental, e talvez estivessem fazendo alguma pesquisa para a faculdade ligada ás ervas provenientes do seio da Mãe Natureza.

Capturados pela Polícia prestam depoimento e são liberados.

E aí a sociedade se indigna, e pergunta, onde mora a justiça nesse país?

Sob a voga da grife Tropa de Elite concebe que tais marginaizinhos, escória da sociedade, aliados do tráfico, merecem, no mínimo, ter os rostos esfregados contra o sangue, os corpos surrados e torturados, enfim, aprendam com a única didática que ainda funciona, a da colher de pau, ou mais sofisticadamente, justiça com as próprias mãos.

A exemplo dos heróis da Marvel, Capitão Nascimento, El Justiciero (tcha tcha tcha, como diriam Os Mutantes) das telonas veio ao mundo para cumprir uma sina messiânica e fazer nascer de novo os “cidadão meliante”, honrando seu sobrenome.
Clamando por paz, debaixo do céu e da terra, El gran ídolo da garotada já faz seus primeiros discípulos, intolerantes e despreparados.
O menino João Roberto, de 3 anos, foi assassinado hoje, mais uma vez.
P.S.: Como aconselha Millôr, esse título se trata de uma (ironia!), entre parênteses, é claro.
Raphael Vidigal

sábado, 25 de outubro de 2008

O Óbvio Ululante:


Nelson Rodrigues foi, a vida inteira,um misto entre o sagrado e o profano. Foi tarado e santo, gênio e louco, revolucionário e reacionário, e por fim ninguém melhor do que ele próprio para defini-lo: foi um anjo pornográfico.

Suas peças e crônicas nada mais são do que o retrato dele próprio e do que o cercava e moldurava.Como todo artista, sua obra está completamente contaminada dele mesmo, da flor da pele ao pó do osso (como diria Caetano Veloso).

A complexidade de Nelson Rodrigues, suas peças, seu jornalismo anti-idiota da objetividade está intimamente ligada ao seu temperamento controverso e polêmico, e daí vem toda a sua riqueza.

Pois Nelson Rodrigues foi um autor que sempre desprezou o maniqueísmo católico e posteriormente comercial, embora ele mesmo carregasse no pescoço uma cruz e quisesse ser reconhecido pelos grandes veículos, intelectuais e público.
Embora fosse adepto de uma boa roda de amigos jogando conversa fora e fumante crônico jamais colocou uma gota de álcool na boca, e a boemia não fazia seu estilo.

Teve diversas mulheres, vários casamentos, muitos filhos, e era devoto incurável do amor eterno.

Escrevia sobre estupro, incesto, adultério,e se entregava de corpo e alma quando conhecia a nova mulher amada, que idolatrava com cartas,presentes e flores e sabia e dizia que todas elas gostavam de apanhar.

Mas com uma personalidade como a sua não poderia ser diferente. Nelson Rodrigues era nada mais do que um passional ilustre, capaz das mais belas e ternas declarações de amor e dos maiores insultos e desaforos, indo de um para o outro em questão de milisegundos.

E embora o tema de suas peças fosse uma constante, era totalmente imprevisível.Ninguém jamais sabia o que esperar de Nelson Rodrigues, a não ser algo grotesco e genial.
Mais do que o exagero presente em tudo o que ele escrevia, o escracho, o deboche, a ironia, Nelson Rodrigues trabalhava, comia, e vivia movido por um motivo único e insaciável, a paixão.

A despeito dos adeptos da objetividade que se apoderavam agora do cenário jornalístico brasileiro Nelson carinhosamente os classificava de idiotas e seguia assistindo a espetaculares vitórias de seu Fluminense por 0x2 contra o Botafogo, a crimes já solucionados e cercados por mistério e suspense, a fatos corriqueiros da vida humana que eram comparáveis a uma ópera na qual continuava a se gritar "Bravo" horas, dias, meses depois de seu encerramento.

Pois a vida humana nunca foi tão interessante quanto a criatividade de Nelson e jamais alcançaria um grau tão supremo de beleza e genialidade quanto a que a sua imaginação produzia.

Fraco, adúltero, incestuoso, monstruoso, criminoso, o lixo humano que se estabelecia na realidade e nas peças de Nelson era tão pequeno quanto o sentimento de querer tratar os fatos da vida humana de forma objetiva, sendo escritos por uma outra vida humana, presa e parte presente do universo a ser descrito.

Nelson Rodrigues desprezou eternamente essa tentativa de se abster da parcialidade, mesmo porque não conseguiria, nem ele, nem qualquer idiota com esse pensamento.

Porque acima de tudo, repito, a obra do autor estará sempre contaminada por ele, e segundo porque Nelson era um apaixonado constante, que tinha a sua ótica de ficcionista para tudo, e em todo canto enxergava um buraco de fechadura para espiar, mas era acima de tudo um amoroso, e como "O amoroso é sincero até quando mente", está perdoado por todas as invencionices que espalhou por suas crônicas e textos, no fundo ele estava apenas nos mostrando o "óbvio ululante".
Raphael Vidigal

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Rosa dos Ventos:

Centros culturais espalham-se no Brasil. Entre os espalhados, amontoados, aqueles que carregam no sobrenome a alcunha de favelados.

Centros culturais oferecem atividades que a escola deveria oferecer. Mas não há escola por aqui.

Pois se a escola muitas vezes deturpa, aqui deturpados são sem escola e sem oração.

Vemos aqui sujeitos no palco, da vida e do teatro. Sujeitos na pista, de dança e de corrida. Música para os ouvidos, mente e coração.
Tudo se une, se amontoa, espalha.

O palco invade a pista, que invade a cabeça que liga direto ao coração dos que assistem e participam.

É uma iniciativa fundamental para o país. Merece louros e aplausos. Surgida por conta da mais pura necessidade, da falta total, do abandono, da exclusão.

O ideal seria que grupos como esses continuassem existindo não pela falta, mas em consenso com o resto da população. Que fossem incluídos não apenas dentro de seus feudos, mas sim do mudo inteiro, sim o mundo inteiro!

Que as pessoas se conscientizem, conheçam e apóiem mais, muito mais, o Centro Cultural Vila Marçola, os projetos Cultura da Criança, Brinquedos e Brincadeiras, Senhores e Senhoras do Tempo, o Grupo Juventude em Ação e o Rosa dos Ventos.

Que a Rosa gire, o Vento leve e a População respire.

"O vento assovia de frio
nas ruas da minha cidade
enquanto a rosa-dos-ventos
eternamente despetala-se" Mario Quintana

Raphael Vidigal

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Or(leans)DEM e Bragança: -Progresso (?)




Estava aquele rapaz como outro qualquer, que nada tinha de especial, impressionado com aquela vista.

Mansões enormes, dignas de serem comparadas aos castelos fabulosos que ele ouvira falar na infância e vira no cinema nas comédias americanas.
Três, quatro, cinco andares em um único espaço, quase tão ou mais impressionantes que a grandiosidade dos maiores prédios que já havia visto.Recheados de janelas, varandas, quintais, portas, portões, portais.
Homens de preto e cara amarrada fechavam-se em pequenas casinhas embutidas nos casarões.

Jardins que não possuíam apenas o verde clássico que ele apreciara muitas vezes em filmes, livros e fotos de cartão postal.Não, ali naqueles jardins que pareciam florestas havia de todas as cores, tantas cores que eram inclusive mais cores que as cores do arco-íris.Tantas flores que eram inclusive mais flores que as flores do buquê de rosas da dama do filme.
Mas não só de natureza vive o homem.O melhor ainda estava por vir: A Garagem.
Os automóveis importados que levam o homem a qualquer lugar, a qualquer velocidade, qualquer potência.Aqueles carros furiosos demonstravam todo o poder que um cidadão podia almejar, vinham com o slogan do cavalinho famoso e muitos outros, que embora não possuíssem a miniatura do animal feroz ainda assim impunham respeito.
A cada passo que dava mais o rapaz se encantava com toda aquela riqueza, aquele progresso, aquela beleza.Mansões, carros, jardins, ilusões pipocavam diante de seu olhar abismado, bobo, afinal aquele rapaz nada tinha de especial, como outro qualquer.Deu o passo final e caiu no Morro.

Raphael Vidigal

segunda-feira, 25 de agosto de 2008


Você é o que você come (?) :
-Glória,Glória,Aleluia
!


Prodígio já nasceu chorando.
Não queria aquele nome.
Glória, sua mãe, prontamente o repreendeu.
E ele nunca mais chorou.
Quando completou um ano de idade pediu de presente uma mamadeira.
Ganhou um saboroso McLanche Feliz.
Aos 2 entrou na escola.
Seu melhor amigo era Nelson.
Fofocava com Guimarães.
Aos 3 quis ter um gato.
Ganhou um cachorro.
Queria chamá-lo Raul.
A mãe o chamou Jobim Tom.
Aos 4 chegou ao Exército.
E experimentou de tal liberdade.
Aos 5 resolveu ser pintor.
Fez vestibular pra Direito.E passou.E cursou.
Aos 6 foi brincar de médico com Mário.
Sua mãe não gostou.
E com Maria então ele brincou.
Aos 7 quis ser solteiro.
E começou a namorar.
Com quem ele nunca soube.Mas era mulher de respeito.Era tolerante e bela, lhe disse uma vez sua mãe.
Aos 8 queria ser virgem.
E pela primeira vez transou.
Aos 9 ele engravidou.
Na mesma hora casou.
Nasceu seu primeiro filho: Pablo, ele batizou.
Pela mãe era Salvador.
E pelo cartório também.
Aos 10 se divorciou.
De quem jamais se lembrou.
E nem com quem recasou, dessa vez sem nenhuma igreja.
Aos 11 era contra as drogas.
Ouvia o Planet Hemp e bebia (Coca) e cheirava (Cola) e fumava (Bobs).
A mãe o acompanhava.
Aos 12 era homem fiel.
E dormia com amantes.E sonhava com elefantes.
Já amava N. Rodrigues de muito antes.
Aos 13, Respeitado Advogado, detentor do conhecimento dos Direitos e Deveres do Homem.
Sabia lições de Moral.

Que ele nunca lecionou.
Aos 14 então já cansado, finalmente Prodígio morreu.
Viveu homem e morreu menino.
A causa diagnosticada: stress prematuro e infantil.
Sua mãe lhe deu um Câncer.
Prodígio então partiu.Queria era ser cremado.
E enterrado ele sorriu.
Glória,Glória,Aleluia!


Raphael Vidigal

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