sábado, 1 de julho de 2017

Robert Bresson


tenho cuidado da solidão
como da sua bola de pelo
a gata
ela é tão minha,
que já nem sei se me
arranha o carpete
ou a alma.


Raphael Vidigal

Imagem: Cena do filme "Mouchette". 

El Greco


dai-me a paciência
de quem espera

a compreensão
abstrata da poetisa

dai-me a vontade
do faminto
o sono aterrador
do insone.

dai-me, por fim,
o martírio dos santos
e a beleza infrutífera
do choro.



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de El Greco.

Fúnebre


coração impresso
em papel timbrado
é beijo sem a língua
corvo no espantalho


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Ione Caldas.

Diagrama


passatempo não tem mais hífen
perto à vulva ficou sem o hímen
porta da geladeira está com imã

porta da vulva não tem com imã
perto à geladeira está sem hífen
passatempo ficou, mais o hímen

perto da porta está o passatempo
ficou a vulva, à geladeira e sem o
mais o hímen no imã do hífen e o


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Ione Caldas.

*


a liberdade pode ser uma prisão: mas a prisão jamais libertará


Raphael Vidigal


Pintura: Obra de Georgia O'Keeffe.

Navalha


A vida mantém-se em pé
Por um fio da navalha
A morte fica deitada
Não há como derrubá-la
e quando estica a pata
engalana o fio na baba

A vida entrega os pontos...

Mas deixa o rastro da sua navalha


Raphael Vidigal

Escultura: Obra de Aleijadinho. 

Animal


Gosto do desenho
dos seus tornozelos.
E de sentir o medo da gazela.
Quando a chuva anuncia o vento
A bruma faz de mim
seu reino.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Artemisia Gentileschi. 

Surgir


Que o peito se inflame
Que a boca toda cante
E que o olho se banhe
Duma alegria enraizada
e equânime
Qual liturgia obstinada
e unânime
Nada irá dragar o sonho
Cheiro a tua nuca
como bom samaritano
E a felicidade é tão comum
Quanto o milagre
Tanto eu esperei por esse canto
Tanto eu esperei por essa flama
Que agora
Banho


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Pierre Bonnard.

fuligem


contempla-te o vazio
no invólucro da sauna
até o mais sombrio
é feito pela aurora



Raphael Vidigal

Escultura: Obra de Brancusi.

fibra da película


sonho é cinema particular



Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "A Estrada", com Giulietta Massina. 

península (Inflexibilidade do fato)


apenas tateamos o hoje
por isso só existe ontem
a ele comparamos nossas expectativas
de futuro...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Renoir. 

domingo, 4 de junho de 2017

Crepúsculo


Não existirá
o braço sobre a pia rota
Não existirá essa mão que segura a escova.
Os dedos que a amparam nas pontas
não existirá
esse peito que deita sob a colcha
esse hálito que pela manhã escapa da boca
o sentido primário e o sentido último
Não existirá a pele o pão o asfalto.
Por isso dorme com tranquilidade.
E come quando tem vontade.
Que do sono e da fome do mundo um dia serás capacho




Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Monet. 

Perspectiva


Só podemos esperar
que seja de novo amanhã.
E o frio recolha a lavoura,
e a febre se torne terçã.
Apenas podemos esperar
um sol de manhã
o frio à tarde,
sobre as vasilhas
trigo e maçã.
Só podemos imaginar.
Que seja de novo amanhã.
E a vida recolha suas mortes.
Da varanda se aviste uma fruta:
não muito verde, tampouco madura – que tenha uma cor de manhã


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Edward Hopper. 

Cabra


Na vida eu tenho duas bandeiras:
A preguiça e a liberdade – com uma
Eu seguro a primeira
             com a segunda eu enrolo
                                   o mastro
            duas bandejas assim
                        eu trago:
Sobre a preguiça a Liberdade
            se dou bandeira é de preguiça
            se dou de bandeja é por liberdade



Raphael Vidigal

Desenho: Obra de Belmonte. 

Estilingue


Não há de contestar a própria ferida
Nem esperar de um dia as cicatrizes
Mantendo-a assim aberta como vida
Que a morte venha a ser o estilingue
Do mocho e do urânio e da estamina
Retornas ao choro e à luz da cirurgia
Por entre sangue os gritos da barriga
E não hei de contestar a própria ferida


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Edvard Munch. 

pomo


e fica o dito
pelo não dito
fica o ferrão
da abelha
como da brasa
a centelha
fica do som
a orelha
fica o findo
e queima
queima



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de De Chirico.

bússola


lhe desejo
bons augúrios
& presságios
maus presságios
bons augúrios
como há nuvens
sobremar



Raphael Vidigal


Pintura: Obra de Salvador Dalí.



Fio


A vida tem muitos capítulos
Prelúdio, interlúdio, epílogo...
Quem dera se a gente pudesse,
Fechar a vida como a uma novela.
Porém não se aprende com a vida
Já que não a escrevemos na tela
Nem mesmo de cor e salteado
– Ou combinações matemáticas –
É possível decorar a vida,
Afinal de contas ela não é didática.
A vida que muda e se enrola
A vida que enrosca na roda
Não sabemos para onde vai a vida
Muito menos da onde irrompeu com tal força.
Uma coisa, por acaso, é sabida
A vida traz muitos destinos
– Há folhas soltas no livro –
Desconhecemos se é folhetim ou prosa
Pois sua tragédia vez ou outra é cômica
E o fio que a puxa ri e chora e goza.
De repente a vida é outra estória


Raphael Vidigal

Escultura: Obra de Brancusi. 

Simpósio


Existe uma preguiça geral sobre nossas cabeças.
Por cima de macacos que recolhem piolhos lá
Está ela – a preguiça geral sobre nossas cabeças –
Discute-se o futuro do Universo, a cereja do bolo
E o preço da gasolina – existe uma preguiça geral
Sobre nossas cabeças – e um piolho escapa da
Mão lesa. À frente da mesa está Vossa Excelência,
Ao lado os conselheiros. Por baixo estamos nós
mesmos. Existe uma cabeça geral sobre nossas
Cabeças. Piolhos recolhem macacos por cima do.
Uma mão lesa escapa ao Universo. Desfalca pela
Circunstância o bolo da cereja. O macaco engole Vossa
Excelência. Por baixo estamos nós piolhos de nós mesmos.
Retesam os Conselheiros. Existe uma preguiça geral que caem das


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Jackson Pollock. 

O tempo no espaço


O quarto dele está vazio.
E não voltará a ser preenchido.
Pende a roupa sobre o cabide.
Sustenta o algodão ainda limpo.
No chão não existe mistério, permanece
o azulejo incólume e frio.
Ainda que bolinhas de poeira voem até
as paredes, que elas toquem o armário aberto
nada indica que pela porta aberta ele entrará
no quarto vazio.
Pende a roupa sobre o cabide.
Sustenta o algodão ainda limpo.
O chão sem mistério é incólume e frio.
Bolinhas de poeira voam até as paredes a partir do azulejo
Incólume e frio e alcançam o armário aberto
aonde pende uma roupa sobre o cabide.
A porta vazia nada recebe, ninguém a encosta nem fecha.
O quarto dele está vazio.
E não voltará a ser preenchido.
Embora haja nele um tempo infinito.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Edward Hopper. 

Obstáculos


Essa coisa rala
que é o nosso cotidiano.
Mas nele se inscreve
a nossa eternidade
Que quando a gente vê
está guardada numa
Caixa de Pandora.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Artemisia Gentileschi.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Augúrios


Durante a nossa vida iremos conspirar contra o governo
E ter sonhos de que um dia venceremos
Durante a nossa vida vamos avistar a mulher amada
E acreditar até o fim que ela é perfeita
Durante a nossa vida mais que tudo perderemos nossos ganhos
Uns amigos, pais e mães, e as namoradas
Durante a nossa vida talvez o tempo nos escape sem alarde
Já que as máquinas abafam o som dos pássaros
Durante a nossa vida nenhum dia terá fim e nem começo
Será tudo a espera doce e triste do milagre


Raphael Vidigal 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Camurça


A decomposição do corpo em descanso.
A boca na varanda, os olhos no sobrado.
E toda a sala ampla iluminada de órgãos.
A decomposição do corpo está impassível.
Não se exaure. Há gritos no porão. E choro
No sobrado. Soluços na varanda. Porém no
Vão do sótão a mão é inerte, e nada afaga. A
Sala iluminada engole o corpo igual camurça.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Helena Almeida.