terça-feira, 9 de maio de 2017

Camurça


A decomposição do corpo em descanso.
A boca na varanda, os olhos no sobrado.
E toda a sala ampla iluminada de órgãos.
A decomposição do corpo está impassível.
Não se exaure. Há gritos no porão. E choro
No sobrado. Soluços na varanda. Porém no
Vão do sótão a mão é inerte, e nada afaga. A
Sala iluminada engole o corpo igual camurça.


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Helena Almeida.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Resíduo


Aceita as ilusões
e a dor que elas te trazem
Sempre fica alguma coisa
na derrota, no naufrágio
como o tártaro no dente
como a crosta que se instaura
como o lodo em nossos lagos –
o que há no fim do copo
é tão somente a ilusão materializada
pois bebe o vinho
e junto engole a vã ressaca –
que é dos mares: ou deixa que o concreto anestesie a sua alma


Raphael Vidigal

Imagem: Obra de Adriana Varejão.

papiro


a morte olha de soslaio
a vida entra de esguelha
entre o berçário e o enterro
nossos sonhos são
papeis de
vento

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Frida Kahlo.

Visão


Tudo está envelhecendo
O bolo de maçã
O asno
O feno

Nada fica sempre pleno
A hora
O nascimento
O beijo

Tudo fica sempre pleno
Nada está envelhecendo

A hora da maçã
O bolo de beijo
O nascimento do feno...


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Cézanne.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Têmpora


O relógio de meu pai
no braço da cadeira
não está aonde deveria.
Pois o braço da cadeira,
não pulsa, não tem veia,
não sente as contrações do dia.
Não se absurda com a existência.
O relógio de meu pai no braço da cadeira
É como uma alma sem têmpora


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Magritte. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

lírio partido


mesmo
que o rio esteja em tom negro
que a grade esteja no espelho
dar um sorriso com os dedos

que o lírio esteja partido
que o mal esteja em silício
dar um sorriso com os dedos
mesmo

que o dedo esteja na boca
que a boca esteja em tom negro
que o mal esteja no espelho
dar um sorriso com os lírios

mesmo
que a grade esteja na vida
que a morte esteja na vida
que o povo esteja em degredo

dar um sorriso com os dedos
quebrar o espelho do medo
puxar a mão pelo lírio
colher a flor do silêncio


Raphael Vidigal

Imagem: cena do filme "Lírio Partido".

mantra da resistência


banqueiro não é bancário
espelho não é salário
índio não é escravo
poema não é esmalte.


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Amilcar de Castro.

mínima


O trabalho danifica o homem



Raphael Vidigal

Imagem: obra de Hélio Oiticica.

Ponto


Às vezes esqueço
que não estamos mais juntos
e te espero com a mão abanando
como no ponto de ônibus.

Não há outra saída
senão a de me acostumar com a sua ausência.
Estou envolvido
na dor que te dei

com a mão para o ônibus
como num ponto abanando
e não há saída


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Edward Hopper. 

Deglutindo Décio Pignatari


Sou contra o contrário e a fa-
Vor do favorável. Assim na pu-
Lítica como na arte sou a fa-
Vor do contrário e contra o fa-
Vorável assim na arte como
na política lítica tica ica a sim


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Lygia Clark. 

Cravos


Ainda não me acostumei
Ao teu desaparecimento
Com a óbvia ausência do
Teu corpo. E o irrefreável
Tempo diz-me tudo: você
Não veio e não virá. Estou
Tão só no espelho como
No mundo. Você que suma
Como achar conveniente


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Modigliani. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Regresso


Sinto sua falta nos meus dias
Dias que são vespas como cinzas

...Falta-me a ninfa do teu beijo

Sinto sua falta nos meus beijos...
...Que entre tu e eu são só desejos
Caem como bêbado em meus versos,
Pois de pirilampo é que são feitos!

Voam as vespas cinzas no meu teto...



Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Edvard Munch. 

sábado, 15 de abril de 2017

meteoro


Só o silêncio circunda
um coração que gane

Somente a lágrima pune
um coração que grunhe

Na volta do meteoro há o semblante de pânico
o coração já não sabe o que fazer do estômago

algo que ronca vazio enquanto gane e grunhe


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Jhê Delacroix.  

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Fases


No princípio era o verbo
No começo a ode
No meio a metáfora
E no final o sarcasmo


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Caravaggio. 

templo vazio


já que não podes nada
aceita
assuma
mas não esqueça a batalha
mas não renegue a luta
já que não podes nada
reconhece
curva-te
mas não entrega a vitória
mas não sonegue os juros
já que não podes nada
contempla
vaga
faz da batalha o telhado
tens na derrota sua gruta

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Goya. 

Reverberando


nunca mais
que peso
tem essa
palavra
que são
duas e
procura
o vazio o
nada nunca
mais...

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Rembrandt. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Partir-se


Que tuas últimas palavras não sejam duras, mas de conforto.
Que tuas últimas palavras não sejam para o alto, mas para o corpo.
Que tuas últimas palavras possam lavar a alma, e molhar o outro.

Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Renoir.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Enredo


Ainda vais sofrer muito
Chorar até não poder mais (e poderá)
Arrancar os cabelos
Xingar a mãe e o pai
Ainda vais sofrer pelos bares
Na pia
No vão da escada
Ainda vais encolher os ombros
Virar as costas
Jurar não voltar nunca mais (e voltará)
Sorver o amargo e o sal
Ainda vais
Mas é melhor não pensar
Não há palavra que valha – tem sofrimento a própria ânsia de paz

Raphael Vidigal

Imagem: Obra de Leda Catunda. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

O Lagarto do Sorriso


Engraçado, faço o que sempre fiz: leio, escuto música, vou ao teatro, assisto filmes, vez ou outra uma dança ou exposição, escrevo. Mas agora me pagam pra isso. E os sorrisos das pessoas alargaram-se, ficaram maiores, diria até: mais cúmplices. Os valores desse mundo são Realmente monetário$. Nunca fiz outra coisa na vida. Antes, era o mesmo “trabalho”. Quão pomposo ando eu. Sinto falta de ser olhado pela vagabundagem...

(trecho de uma peça inacabada, “O Lagarto do Sorriso”, a ser concluída por este autor, quando ele for dispensado, a fim de que o terceiro ato ganhe em dramaticidade)


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Seurat. 

domingo, 26 de março de 2017

Alasca


um bicho
nascido para ser sozinho

um bicho
circunscrito ao próprio caminho
um bicho vulnerável,

vivo


Raphael Vidigal

Imagem: Obra de Leonilson. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

pasto


pantomimas
prosódias
e paraopebas
nada disso tem importância
quando o coração está de bucho vazio

paródias
pastiches
nada dizem a um coração inane
nem mesmo a chuva é capaz de lhe
regar os vasos sanguíneos


Raphael Vidigal 


Pintura: Mauve, de Giovanni Boldini. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

engana-se

              


              a última vez foi engano

a primeira foi enganação 


Raphael Vidigal

Gravura: Obra de Livio Abramo. 

Apartamento


Quantas vezes nos despedimos?
Porém, sem ter mesmo para aonde ir regressamos ao apartamento.
As mãos trêmulas, a garganta vazia, a sombra mocha junto aos cálculos de uma dívida irrisória.
Paredes brancas iguais a saudades,
Ígneas, deslumbrantes.
E nós ali, de bruços,
sem um, sem o outro.
Apenas contando as despedidas,
Recontando as feridas,
Rejulgando os gestos.
Cada palavra, cada riso,
e tantos, tantos cacos de vidro espalhados...
poderia ser de outra forma?
Não responde o apartamento branco,
o apelo brando,
a mão sem saudade,
calosa,
apenas suando...
certa de que o pranto virá em seu socorro.
Nada vem, só no eixo permanece a despedida
Cética e rumorosa
por entre os poros das paredes brancas...


Raphael Vidigal

Gravura: Obra de Livio Abramo. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sibilar


vivi com a emoção
à flor da pele
os nervos de aço
ficaram em frangalhos
a língua afiada
nos dentes
hoje uma língua de sogra
como o olho de sogra
que já foi gordo, outrora grande
pois nunca meti o nariz
aonde não fui chamado
puxei a orelha
peguei no pé
estalei as bochechas
nem tudo na vida é ditado
apenas vivi à flor
da idade
na pele marcada
de burro fugido
sem cor


Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Matisse. 

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