quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Colônia


A seriedade veste roupas largas, compridas, escuras,
Trazidas de Portugal.
Deixa-nos como bobos,
Neste calor dos trópicos.
Nem bufões e nem palhaços,
Tão somente homens e mulheres de negócios.
Aos píncaros do coração em pandarecos,
E o suor nas coxas.
Mas a seriedade não veio para brincadeira,
Veste roupas azedas, tristes, graves,
Trazidas de Portugal.
Ficamos em salseiro,
Sem saber como se quebra o coco,
Afinal somos  a colônia
Fiel colônia.
Colonizados comemos peru com o rosto em lágrimas
Pingos espessos como sangue de frango ao molho pardo,
E cumprimentamo-nos com cuidado,
Para que não se amasse a gravata,
Nem o vestido de muitas guirlandas.
Somos árvores de Portugal,
Aqui plantadas
Trazidas como os escravos,
Como mangas.
A seriedade veste roupas largas,
Donde um olhar matreiro espia por seu buraco,
E diz: – Vem cá, portuga!
Vê se vira sapo,
Nesta terra em que tudo planta, tudo colhe
E tudo se dá,
Não basta plantar bananeira
Tens que ser muito macaco,
Vê se separas o joio do trigo,
Para não pagares o pato!




Raphael Vidigal

Pintura: Obra de Toulouse-Lautrec.

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