quinta-feira, 26 de maio de 2016

Passagem


As dores se substituem
Como uma planta devora outra
Como um arbusto toma a calçada
A dor de arrancar os dentes
Já não há mais; porém a dor
Persiste, por outros meios
Toma corredores diversos
Secretas passagens e me
Encontra, estendido sobre
A calçada, sobre o corredor
Coberto de plantas, com arbustos
Por sobre o peito, por sobre os dentes
Por entre muros. Entre muradas.
A dor de arrancar os dentes
Da minha infância, já não há mais
Porém uma dor mais lânguida
Que se esgueirou, e difundiu-se
Em meu corpo todo. Uma dor de amor,
Uma dor solitária, uma dor de dente
Só que intratável. É dor carnívora,
Embrionária; caçou-me os ossos
Cortou-me as asas, a dor de tudo
De estar na vida, dor de gnomo,
Porém sem fada. A dor de
Arrancar os dentes, da  minha
Infância já não há mais.
A dor é outra, a dor presente
É a que dói mais. A dor de agora
Intermitente, inalterável.


Raphael Vidigal

Pintura: obra de Jackson Pollock.

Seja o primeiro a comentar

  ©Caminhos dos Excessos. Template e layout layla-imagem banner: tela de Salvador Dali

TOPO