sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
objeto
uma alma com chuva
mesmo depois de seca
permanece pingando
Raphael Vidigal
Imagem: foto de Manuel Bandeira.
Esperança
hoje, nada
ontem
um choro abafado
amanhã:
uma cova funda
Raphael Vidigal
Imagem: foto de Ana Cristina Cesar.
olho
o
umbigo
bígamo
e
o
monogâmico
ânus
entraram
em
acordo
leonino
para
que
o
âmago
fosse
sempre
destino
Raphael Vidigal
Imagem: foto de Allen Ginsberg.
Feroz
E me sentir mais homem.
E me sentir mais cão.
Ao te cravar as unhas.
Ao me deitar no chão.
Ao me postar de quatro.
Ao te lamber as partes.
E me sentir entregue.
E possuir teus vãos.
Ao te enfartar em vida.
Ao te fartar do pão.
E saciar o bicho.
E saciar a fêmea.
E saciar o macho.
E saciar o cão.
Ao me sentir mais gente.
Com as veias aparentes.
E o ar a pleno pulmão.
Desfigurar teu ventre.
Abrir os interstícios.
Sentir como quem entra.
No dentro feito cão.
Com o osso pela boca.
E a baba em pelo ensopa.
O que é meu e nosso.
Pois já não tem sultão.
E te sentir inóspita.
E me sentir teu hóspede.
E oferecer a lança.
Que rasga à contramão.
E estar como quem caça.
O rabo feito a cobra.
O rabo feito o cão.
Comer o teu chocalho.
Sugar da pele o suco.
Conter do lábio o sal.
Extraviar teu barco.
Te debruçar no cálcio.
Puxar-te à embarcação.
E me sentir mais homem.
Deitado nu e casto.
Ao ver-te nua e casta.
Após a extrema unção.
Raphael Vidigal
Imagem: foto de Arthur Rimbaud.
vela
lava os teus anseios
deixe que o flagelo
te devolva
ao útero materno
lava e depois cessa
o que está à tona
é só a chama
dos que
velam
Raphael Vidigal
Imagem: foto de Cecília Meireles.
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