terça-feira, 10 de junho de 2014

No fundo do quarto do quartzo quadrado


Abro a minha gaveta
De livros e remédios.
Bebo a página,
Leio a bula,
Engulo os comprimidos
E as estruturas:
Verbais, inflexivas e de concordância.
Louca ou sã,
Doente ou sóbria:

                                   é literatura.

Raphael Vidigal

Pintura: "Canção de Amor", de De Chirico.  

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Mímica


Gosto de chafurdar por amor a essa palavra.
Muito mais bonita do que a água, “insípida”.
Por isto enquanto você “lago”
Eu em charco.

Raphael Vidigal

Imagem: foto do mímico Marcel Marceau.  

Doença animal


Ora, aro

Morde?
- Claro

Chora?
- Mato!

Ama?
- Pathos,

Raphael Vidigal

Ilustração: "Retrato de Nicolò Paganini", de Edwin Landseer. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Pingo


O rancor escorreu...
Assim,
Quase já sem vida.
Fraco,

Mas o rancor escorreu.

E eu me indago:

- Se foi vontade do amor,
Ou até descaso,

Que o rancor escorresse...

Assim sem asa,
Assim sem pétala,
Assim sem pata,
Assim sem escama,
Assim,

Fraco.


Raphael Vidigal

Pintura: "Jovem mulher com um jarro de água", de Vermeer. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Ir pra não horar


Não ameace minha liberdade.
Eu quero muito,
Eu quero o meio
E maio.

Não ameace minha liberdade.
Eu quero curto,
Eu quero inteiro
E ágil.

Não ameace minha liberdade.
Que eu te ameaço,
Imobilizo,
E saio.

Raphael Vidigal

Pintura: "Renata Borgatti ao Piano", de Romaine Brooks.