sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Duro


É a fome que me chama para o mundo.
Com um chamado de dentro, arrastado
e mudo. E eu, feito de carne e de osso,
aceito esse primitivismo do meu corpo.



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Edward Hopper. 

Inalação


se deito
não me levanto

se canto
engulo o choro

estou à deriva
no oceano

com uma esperança
em cada olho


Raphael Vidigal

Pintura: obra de William Turner.

Desesperança


Os anos se atravessam sobre nós.
Passam sobre os trilhos sem trenós.
E as lembranças escoam
entre os dedos de um
menino que acredita em Papai Noel.
Mato uma a uma minhas obsessões
e fico a perscrutar o pior de nós.


Raphael Vidigal

Imagem: obra de Van Gogh. 

Viagem


o que é a morte
para os que sonham?
se os incrédulos argumentam
que a derradeira és o negro torpor
do abandono aos pensamentos
e do corpo...
como convencer os que
sempre sonham
de que haverá o completo
esquecimento
o fim sem rumo?
a inconsciência plena?
a ausência de tudo?
se a cada morte lenta
e cotidiana
pois que é deitar-se a morte
para os que sonham...
e dormir se faz eterno
em lentos e indefiníveis contornos
a morte só pode ser dormir
(repleto em sono)
se sonhar é o mesmo
que estar morto...
e a cada nuvem de prata
por cada sol maluco
com sua língua pra fora
feito cachorro...
se abana a língua
e acorda-se: na mesma cama –
sonhar é o mesmo que estar morto.

Raphael Vidigal


Imagem: fotografia feita por Mathilde Weil em 1901.  

domingo, 21 de janeiro de 2018

Baudelaire


quando desce
a noite alta
os eflúvios do amor
se reúnem
como poeira no assoalho

não há uma morte exata
apenas a lenta cicatriz
informe e cálida
no meu mundo
eu pego todo sonho

e transformo em retrato
a memória de cada porta
da poeira ao pé do assoalho
quando desce a noite alta
me enforca em eflúvio de vômito



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Suzanne Valadon.