segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Símio



Por uma realidade
mais Utópica
e um pensar
menos arcaico
Deixai pra trás
o obstáculo e
abraçai o Orangotango



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Gauguin.

Nascimento



romper a casca do sonho,
do primeiro ao último olho
arreganhar a mandíbula
até o sol estar roxo...

com a perna ainda bamba...
lentamente a placenta
se desgruda entre piolhos...
esticar ao umbigo do medo

as derradeiras vergonhas,
durante as preces
ser implacável como
um coice de búfalo

e, quando finalmente nu,
aceitar a terra
sobre a carne podre
e os ossos moles



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Matisse.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

centopeia



o corpo da palavra
            respira, engasga,

diante de uma paráfrase
por baixo duma sintaxe

            o corpo
                da
            palavra

geme...
                        goza!

quando vê uma hipérbole
ao se deparar com retóricas

            o corpo da
            palavra
            espia
            por dentro
da saia, do vestido das
                                               metonímias,
                                               anáforas, e
                                               metáforas...

                                                           o corpo
da palavra
                                   sacode as ancas
            ao longo de toda prosopopeia, onomatopeia, zeugma

                        a palavra do corpo,
                        por vezes elipsa
                        noutras alitera
                                   é sempre um paradoxo
            se onde começa o polissíndeto
de fato a sinestesia opera

            a gradação do corpo da palavra
                        depende de ironia,
                                   sarcasmo,
                                      e síntese
(dada tal catacrese)

o corpo da palavra
é um pleonasmo e

            sem figura de linguagem: é a alma no sentido literário




Raphael Vidigal

Pintura: obra de Joan Miró.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Alvorada



para sempre serei teu menino,
colo de mãe é como o vinho
com o tempo só se fortifica...

a gente fica velho,
mas não deixa de estar ligado
pelo umbigo!



Raphael Vidigal

Imagem: Arquivo pessoal.

Plenilúnio



deixei uma a uma
todas as minhas esperanças
a primeira foi em criança
tinha lá meus cinco anos
e uma farpa me entrou no pé
entendi como é ruim estar desprotegido
depois, já adolescente,
um marimbondo me picou o dedo,
então compreendi o palor do medo
a juventude foi mais dispersiva
perdi o amor
perdi amigos
perdi as minhas ilusões
como adulto perdi o desejo
e agora,
que observo a lua cheia
em plenilúnio no mês de novembro
percebo que perdi
o tempo




Raphael Vidigal

Pintura: obra de Van Gogh.