um corpo que sofre
é um corpo que vive
e que só não sofre
se a morte o extingue
Raphael Vidigal Aroeira
Imagem: obra de Potty Lazzarotto
um corpo que sofre
é um corpo que vive
e que só não sofre
se a morte o extingue
Raphael Vidigal Aroeira
Imagem: obra de Potty Lazzarotto
pé de galinha
espírito de porco
em
duas linhas
um poema anônimo
língua de sogra
teta
de vaca
assim
escapa
no
vão da anágua
uma
mancha, uma palavra
ou
só o pó da senzala
escrava, filha da gramática
ou
mãe de toda expressão
que
cava, caça, procura
uma
ninharia
feita
de espasmos
pé de galinha, linguagem escrava
a
centelha acesa
no vão
da anágua
toda
palavra almeja
ao
que escapa
mancha
procura
espasma
(No
umbigo) do mundo
Uma
mão que datilografa
os papiros árabes
de
redes
artificialmente conectadas
não
sou nenhum bandeira
mas
às vezes chego à beira
ora,
estou bem longe de andrades
e
até já causei certo alarde
que
me perdoem os drummondianos
e
todos os cantos gregorianos
(barrocos
e contemporâneos)
pela
audácia – doce disparate –
desses
literais enganos...
Raphael Vidigal Aroeira
na vida do vô chico
o tio
dudu nunca morreu
transporto-me
para esse tempo mítico
em que
não sou pai e ainda sou filho
encaro
meu tio e os olhos de menino
veem no
espelho
o fim e o
infinito
Raphael Vidigal Aroeira
A taça de
sorvete quase aristocrática me lembra você.
A brasa
acesa no cigarro branco. O telefone pendente do gancho.
A taça é
de vidro. O cigarro, feito de papel. E o telefone, talvez, de plástico.
Você foi
embora num instante, ao contrário das longas epopeias que contava.
A última
vez que te vi, você tinha os cabelos presos num coque, as mãos já tão frágeis,
compridas e magras. E me contou a aventura que teve num dia em que saiu de
carro pela cidade, mas o que me recordo é de seu tom de voz rouco.
Antes, quando
visitamos sua irmã, minha tia Inês, você disse, em instinto premonitório “queria
te ver antes de morrer”, ainda sem saber da doença.
Na hora
da foto, você se recusou a aparecer, como de costume.
A agitação
de seus gestos, o coração quase sempre pulando da boca, inflamado pelas paixões
políticas e do esporte, parecia não aceitar a imobilidade que, ao eternizar,
congela os instantes.
Você permaneceu
de lado, olhando para nós, fumando seu cigarro, e eu retive na lembrança essa
imagem sem precisar da imagem.
Neste dia,
você estava fascinada pela vida, pralém da amargura e das mágoas.
Porém, o
que ficou de ti pra mim foram as histórias que meu pai me contava.
A Marisa
da infância que eu não conheci.
A criança
eternamente guardada no corpo da senhora com seu cigarro.
Minha tia
Mac que escrevia contos eróticos sob o véu de um pseudônimo.
Raphael Vidigal Aroeira
09/10/2023