terça-feira, 30 de outubro de 2018

Lixo



poesia é chover no molhado.
prosa é tirar o cavalinho da chuva.
o resto são lágrimas de crocodilo...



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Paul Klee.

Hangar



Não há mais tempo para covardias

chuva
no
meu
umbigo
logo
será
granizo

no coração
dos indecisos

Parto-me em direção ao cataclisma

            o romper da aurora me trucida




Raphael Vidigal

Pintura: obra de Francis Bacon.

Peripécias



Na ponta da bochecha...
Brilha uma estrela!
Na beira do abismo,
Deita um travesseiro...

Tem gosto de sorvete!
O teu olhar de manga...
Eu olho pra o umbigo,

E acolho uma criança!
Que embora distraída...
Me guarda feito a noite,

No brilho da bochecha
Ponta uma estrela...

Na deita do abismo
Beira uma travessa...
(ou trave numa beira?)

Na manga da camisa,
Sorve o teu umbigo,
Eu olho pra criança
e noite na acolhida!

Que embora seja dia “ ”
é tudo pirilampo...



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Margaret Keane

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Erma



nos rincões e confins
na caverna e no
olho
da cabra
– só ela permanece –
a dor,
solitária,
e a cada
morte
mais
avivada




Raphael Vidigal

Pintura: obra de Abigail de Andrade.

Paradeiro



Não há uma lágrima
mais
em seu rosto branco.

Só quem pode chorar
por ele somos nós.
E nós choramos

todas as manhãs.
Não há uma sombra
de espasmo

no corpo de gesso.
Não há mais.
Permanecemos

molhados por fora
e por dentro
enquanto ele desce

ao centro – o corpo
desaparece para sempre.



Raphael Vidigal

Pintura: obra de Bertha Worms.