sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Dialética nacional


No Brasil a lenda (coisa profana e do demônio) tem reza.
Furacão (coisa sem corpo e sem pescoço – portanto sem sustentação) tem olho.
E a grama do nosso vizinho é sempre mais verde (não tem piolho).


Raphael Vidigal

Pintura: "Bananal", de Lasar Segall. 

Dom Quixote e São Francisco


Dom Quixote e São Francisco
Rodopiam sobre a minha casa.
Um dá pão, milho e água aos animais
O outro monta cavalo.

Dom Quixote e São Francisco
As glórias caem ao contrário.
No colo de uma estrela vaga
No bafo de um moinho falso.

Dom Quixote e São Francisco,
Cada qual com a sua loucura,
Um pelo inesperado Cristo,
O outro, por Dulcinéia, santa.

Dom Quixote e São Francisco
Na história de Miguel de Cervantes
Ou na Bíblia de tantos e tantos apóstolos
Eternizam-se nas palavras
Seja para curar os pecados
Ou para aliviar a ressaca.

Dom Quixote e São Francisco
Fantasio um de trapos podres
O outro crê em fantasmas,
Se a retórica me permite
Não sei qual é um qual é outro.

São Francisco e Dom Quixote
Rodopiam sobre a minha casa.
Um me serve poesia
O outro me bebe de prosa.


Raphael Vidigal

Pintura: "Palhaço tocando tambor", de Daumier. 

Bênção


Entrei para as estatísticas,
Sou mais um poeta
Que se sente uma formiga.

Raphael Vidigal

Pintura: "Composição 2", de Miró. 

a ordem dos joelhos altera o rebolado?


Toda época tem o poeta que merece.

Poeta fora de moda,
Poeta fora de época.

Poeta na hora do almoço,
Poeta de catequese.

Poeta que só faz rima,
Poeta que se diverte.

Nem sempre o poeta sobe,
Nem sempre o poema desce.

Mas toda época tem um poeta que se despreze.

Raphael Vidigal

Pintura: "Dança no Moulin Rouge", de Toulouse-Lautrec. 

Ginástica



a grana é curta

                  mas a vida alonga.


Raphael Vidigal

Pintura: "Mont Sainte-Victoire", de Cézanne.